Terça-feira, 4 de Fevereiro de 2014

Impre(ns)sa na nossa mente

Hum… que doce este odor. Mesmo antes de o provar. A gravidade é maravilhosa, fá-lo subir e penetrar nas minhas narinas, inspiro o que posso. Infelizmente não posso absorvê-lo todo, os pelos nasais ficariam hiperactivos, o que pode provocar comichão e isso é desagradável. Estava eu a tomar o meu cafezinho acompanhado pelo tradicional cigarrinho, quando sou chamado ao mundo real por alguém que se encontrava na mesa ao lado.

 

Não que se tivesse dirigido directamente a mim, mas porque a não se exibia apenas para aqueles seus amigos, de circunstância, pareceram-me. Todos podiam e deviam! ouvir. Era como se estivesse a proferir uma palestra motivadora perante centenas de pessoas, usando psicologia de bolso. Os jovens da mesa ao lado acabaram por reagir. O seu peito inchara consideravelmente, não lhe chegavam as três ou quatro pessoas que o haviam convidado para sentar.

 

E vociferava coisas e cenas e palavras, que chegavam a ser frases, levantara-se em resposta ao pedido de um cigarro na mesa ao lado – percebera-se então que fora a conversa que os atraíra… Dou um golo no café, perfeito! Uma passa no cigarro. Ak47? Ao que os jovens anuíam ser a sua favorita. Ak47 ou hk47? Insistia entusiasmado, como quem percebia muito. Respondiam os jovens que a primeira era melhor definitivamente, não dando parte fraca. O homem mostrava algum desalento. Não, a melhor era a não sei quê, que disparava não sei quantos tiros por segundo. Espectáculo! Alto e bom som, gargalhava de seguida. Mais conversas sobre armas e balas alojadas no seu corpo e mais espectáculos a cada final de frase. Aquilo preenchia-o.

 

Obviamente que o homem era um militar. Havia estado no ultramar. Mas pareceu-me que mais do que apreciar aquela velha memória, sentia-se mais confortável a revivê-la do que a viver o presente. Como se fosse um alívio da alma, era mais aconchegante. Pareceram-me haver sequelas emocionais naquele homem. Enquanto os jovens, já desinteressados, anuíam desligados do que falava, com o cigarro na mão.

Hoje, precisamente no mesmo sítio, um rapaz, na casa dos trinta, vociferava que os ia matar. Sentei-me. Vocês podem imaginar para fazer o quê. Hoje vou dar porrada em cada brasileiro que me aparecer à frente. Eu li [num jornal] que mataram dois portugueses no Brasil. Cada um que apanhe faço-lhe o mesmo. Este falava alto mas, a princípio só se dirigia a um colega, sentado pacientemente na mesa.

 

Mas a revolta levou-o a dirigir-se às pessoas que passavam pelo local, bem alto, para que todos ouvissem. Fingiam que nada ouviam. Não queria definitivamente ser ignorado. Hoje, todos os que encontre daquela raça, parto-os ao meio, enfio-lhes uma faca nos cornos, enquanto fazia o gesto com a mão. As pessoas continuavam a não ouvir. Apercebi-me de duas coisas: em primeiro lugar, frequento um sítio que parece um viveiro pessoas alienadas da realidade e em segundo, há cada vez mais pessoas com sede de violência, quaisquer que sejam os alvos.

A imprensa, nos dois casos que citei foi decisiva - embora de forma diferente – para que estas atitudes comecem a surgir. Escrever de forma simples e clara é um dos seus predicados e essa forma de escrita, dependendo sempre do editorial, pode conduzir à violência irracional tanto supérflua como absurda. Teriam os brasileiros residentes em Portugal algo a ver com os do Brasil? Quem sabe se aqueles portugueses não tinham feito algo de errado?

 

Não é por acaso que o mundo político tem interesse em manter a comunicação social sob marcação cerrada – Miguel Relvas foi um dos mais badalados, Sócrates também andou a farejar. O dever de quem informa deve ser o de mudar mentalidades e educar o leitor/espectador e não o de expor inocentes ao ódio de intolerantes. Já fora usada para gerar consenso à volta de algo perverso – guerras, que não são mais do que assassínios e imposições de vontades –, mas também revoltas e mudanças com critério. A imprensa independente tem de saber que está a fornecer opiniões que, posteriormente, geram reacções.

 

Embora sejamos um povo pacífico – como se tem notado nos últimos anos – esta violência circunstancial pode servir como rastilho para a pólvora (seca, no caso dos portugueses) que poderá incendiar pela razão mais inapropriada. A história também ensina o futuro. É preciso, a cima de tudo, esclarecer e aqui, sim de forma clara e franca. Porque a desconfiança gera desconforto, mal-estar, revolta, descontentamento e, depois de o pote estar cheio, violência.

Ora é vista como o equilíbrio entre o poder e o público cego, desinteressado e ingnorado. Tudo floresce a partir da emoção. Mas esta sem o equilíbrio do bom senso, da capacidade de raciocínio ou de objectivos concretos apenas cria desequilíbrios e os desequilíbrios…

 

Oh, acabou o café…

 

Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 01:59
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