Terça-feira, 22 de Abril de 2014

Em memória de ti

Recordo com frequência a tua forma própria de caminhar que te valeu a alcunha e daquele rádio de cassetes, velho como tu, que tocava música bem-disposta, como tu. E quando o rádio já não tocava mais, cantavas tu, músicas de cimo de escada, naquelas noites quentes. Músicas de péssimo gosto, mas que ainda hoje sei a letra.

 

A minha paixão pelas histórias nasceu por causa daquelas que contavas, com descrições preciosas, visualmente fascinantes, de alguém que ia não-sei-onde fazer não-sei-o-quê. Histórias de pessoas reais, sem artifícios, mas tão bem contadas que mereciam estar em tela gigante. Era genuinamente inspirador ouvir-te. E é irónico que as melhores histórias da minha infância tivessem sido contadas por alguém que não sabia escrever, nem ler.

 

Devo-te dois terços daquilo que sou e o terço que sobra tem inveja dos outros dois, porque tu és (para mim ainda és, apesar de ser mais adequados conjugar verbos num pretérito) uma pessoa maravilhosa, um homem de vida difícil, mas empenhado para que tudo estivesse bem. Raiste parta, velhote, se um dia também não vou ser assim!

 

E aquela moeda de 100 escudos que me caía no bolso depois de cada visita… Não era só a moeda que me fazia correr para ti. A razão, agora sei, que na altura não temos capacidade para conclusões deste tipo, era a segurança que me davas. Se pensarmos bem, o que é que uma criança faz com 100 escudos? Investe na bolsa? Compra o jornal? Não sei o que aconteceram às moedas, mas guardo estas recordações como um tesouro de valor incerto, mas imenso.

 

Custou-me ver-te doente, retirado das faculdades básicas, à espera daquele dia que parecia tão certo no rosto de todos os que te eram próximos. Insónias! Muitas noites muito mal dormidas, por vários dias. Acho que quando perdemos uma das nossas referências, também nós morremos um pouco. E precisamos sempre dos grandes homens de bem que lideram o mundo, porque o colectivo tem necessidade de um guia comum, mas precisamos muito mais de homens simples que lutam pela nossa felicidade. E eu amo-te, avô, mesmo tendo deixado de te ver há sete anos. Chorei com um puto no teu último dia, apesar de, para mim, nunca teres morrido.

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 17:32
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1 comentário:
De golimix a 9 de Maio de 2014 às 08:43


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