Terça-feira, 18 de Março de 2014

É a história das abelhas

Saem de casa para recolher o seu alimento. Eventualmente fecundam os grão que descobrem. Eventualmente, um dia saem de casa definitivamente. Certamente que recordarão sempre o seu habitat natural. Como estava comigo. Como estará agora? Como estaria se eu lá estivesse? Há, no entanto, um hábito que mantêm, independentemente do local onde habitam. Voltam sempre a casa porque, claro, foi lá que habitaram, dormiram, brincaram, “cozinharam” o mel do qual se haviam apropriado em outras alturas. Um olho lá outro cá, nunca se sabe se a sua partida terá sido um golpe demasiado rude. Apenas pelo bem dos insectos que lá vivem, poderá ter de ir colocar ordem na colmeia.

 

E acaba mesmo por voltar para apagar algum incêndio que floresceu subitamente. Antes que outros o façam e lhe roubem o mérito. A abelha, que não gosta nada de fumo, quer apagar o fogo. Mas, para isso é preciso ateá-lo ainda mais. Aplicar gasolina no local da combustão pode ser um bocado duro, mas não para a abelha preocupada e voluntária. Quer manter aquele porto seguro, embora já não seja seu. Acaba por não se queimar, já os ”abelhos” que fazem daquela colmeia correm riscos imediatos, primários e simples: perder tudo.

 

Alguém deu uma pancada forte na colmeia e agora as abelhas andam em voltas enlouquecidas em redor do cortiço. As asas batem umas nas outras tanta é a aflição. Abelhas vindas de todo o lado, com curiosidades e feitios, espigões mais e menos aguçados, davam a volta ao quarteirão. Há quase setenta anos que não se via nada igual. Vizinhos, vizinhos dos vizinhos e vespas desconhecidas esticam o pescoço e, algumas chegam mesmo a zumbir. Avisos, opiniões, desculpas provenientes de rainhas dos quatro pontos cardeais, que põem ovos e ditam leis, experientes no exigente xadrez da sua própria casa, inchadas e com um espigão tão grande quanto assustador.

 

O mel é doce. Abelhas desesperadas bezzzzzzzzzs por todo o lado e mãos largas que chegam a oferecer pólen para não perder o mel de vista. Nunca o haviam provado até agora, mas parecem dispostos a fazê-lo mais do que nunca para demonstrar a sua boa intenção. Sempre ouviram dizer que era bom de mais para não se ter, historicamente bom. Sábio que é sábio tem-no no armário para as eventualidades. Será que devem acreditar mais neste, naquele ou na abelha regressada?

 

A abelha quer ordem na Crimeia, perdão, colmeia da qual nunca se distanciou mais do que o necessário porque fez parte de uma história que mantém irracionalmente viva e, essencialmente, ser-lhe-á útil. Repete-se o ciclo da história, como foi há décadas atrás. As circunstâncias da vida, só o são porque alguém agiu de alguma forma. E as abelhas são convencidas que aquilo é o melhor para todos. É o bem “abelhano” que está em causa, o comum, claro. Mas há sempre alguém que nunca deixou de deitar olho àquela colmeia. Talvez chegue a ser uma desculpa, ou um escudo para se proteger, ou até uma pequena bicada.

 

 

A História do mundo é um romance

desastrado e mal escrito. Sem ordem,

composto por frases que se contradizem

bruscamente; demasiado imprevisível

e demasiado previsível.

E nem sequer é fábula;

a moral mínima nunca é atingida;

sempre lá por baixo.

Romance escrito por alguém

que ainda está a aprender a ser louco

(loucura inábil; loucura que ainda procura

agarrar-se a um pouco de lógica) – eis a História.

De resto, na Ucrânia a História avança, ou seja: recua.” 

Gonçalo M. Tavares

 

 

 

Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 01:23
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