Domingo, 11 de Maio de 2014

Um par de testículos

E diz-me ela “Johnny, eu tenho um par de testículos.” Respondi-lhe “Isso para mim pouco importa. Sempre quis só a tua amizade.”

 

Mas não era verdade…

Eu queria mais dela que afinal era um ele, mas devia ser um ele pouco abonado, porque sempre que lhe olhava para a anca não via enchumaço algum.

Ó Deus meu, afinal a Vanessa chama-se Cláudio, mas um Cláudio um pouco afeminado, porque a fragilidade dos pulsos era muita sempre que os agitava à altura dos ombros.

Ó Deus meu, como é que eu nunca desconfiei que aquele homem vestido de mulher era apenas um homem vestido de mulher e nunca a mulher dos meus sonhos com quem me imaginava aos linguadões.

 

O meu mundo desabou…

 

Entrei no meu quarto, soturno, destruído por dentro, e com Carmina Burana a tocar nas colunas, enrosquei-me a um canto, num choro interminável de lágrimas que faziam fila para me saírem dos olhos.

Entrei no chuveiro e enrosquei-me no chão, enquanto a água me batia no corpo, como castigo violento.

Entrei no restaurante e enrosquei-me a um canto, numa sala cheia à hora de jantar. Quando o empregado de mesa me veio pedir explicações tive que lhe dizer que era alérgico ao lombo de porco mal passado, para disfarçar.

Estive tanto tempo enrolado que antes via-me à rasca para fazer alongamentos e agora conseguia roer as unhas dos pés.

 

Mas tinha que tomar uma decisão: renegava aos meus sentimentos e escondia o meu amor por Vanessa que afinal era Cláudio? Declarava-me àquele travesti bem-parecido?

Por fim decidi-me: fui comer um gelado.

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 17:21
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Terça-feira, 22 de Abril de 2014

Em memória de ti

Recordo com frequência a tua forma própria de caminhar que te valeu a alcunha e daquele rádio de cassetes, velho como tu, que tocava música bem-disposta, como tu. E quando o rádio já não tocava mais, cantavas tu, músicas de cimo de escada, naquelas noites quentes. Músicas de péssimo gosto, mas que ainda hoje sei a letra.

 

A minha paixão pelas histórias nasceu por causa daquelas que contavas, com descrições preciosas, visualmente fascinantes, de alguém que ia não-sei-onde fazer não-sei-o-quê. Histórias de pessoas reais, sem artifícios, mas tão bem contadas que mereciam estar em tela gigante. Era genuinamente inspirador ouvir-te. E é irónico que as melhores histórias da minha infância tivessem sido contadas por alguém que não sabia escrever, nem ler.

 

Devo-te dois terços daquilo que sou e o terço que sobra tem inveja dos outros dois, porque tu és (para mim ainda és, apesar de ser mais adequados conjugar verbos num pretérito) uma pessoa maravilhosa, um homem de vida difícil, mas empenhado para que tudo estivesse bem. Raiste parta, velhote, se um dia também não vou ser assim!

 

E aquela moeda de 100 escudos que me caía no bolso depois de cada visita… Não era só a moeda que me fazia correr para ti. A razão, agora sei, que na altura não temos capacidade para conclusões deste tipo, era a segurança que me davas. Se pensarmos bem, o que é que uma criança faz com 100 escudos? Investe na bolsa? Compra o jornal? Não sei o que aconteceram às moedas, mas guardo estas recordações como um tesouro de valor incerto, mas imenso.

 

Custou-me ver-te doente, retirado das faculdades básicas, à espera daquele dia que parecia tão certo no rosto de todos os que te eram próximos. Insónias! Muitas noites muito mal dormidas, por vários dias. Acho que quando perdemos uma das nossas referências, também nós morremos um pouco. E precisamos sempre dos grandes homens de bem que lideram o mundo, porque o colectivo tem necessidade de um guia comum, mas precisamos muito mais de homens simples que lutam pela nossa felicidade. E eu amo-te, avô, mesmo tendo deixado de te ver há sete anos. Chorei com um puto no teu último dia, apesar de, para mim, nunca teres morrido.

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 17:32
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Sábado, 12 de Abril de 2014

Salvem os carecas

Os carecas são uma minoria indefesa, alvos de chacota pela maioria dominante.

 

Eu posso chegar ao cabeleireiro e dizer “Ó Pedro, era para fazer umas madeixas californianas.” Podem duvidar da minha masculinidade, mas o meu cabelo permite este tipo de coisas.

Se um careca entrasse num cabeleireiro e pedisse para fazer madeixas, provavelmente seria alvo de duas coisas: risos ou um banano no nariz. Havendo a possibilidade de acontecer as duas.

O máximo que um careca pode fazer é entrar num talho e dizer “Ó talhante, esfrega-me banha de porco na cabeça que eu hoje vou à discoteca e quero que as luzes brilhem todas aqui.” O que é uma versão low-cost da bola de espelhos, porque a banha de porca está a 1,40€ o quilo.

 

Um careca está confinado a ser “o careca”, mesmo que tenha outras qualidades físicas de valor, como ombros largos, pestanas definidas ou jogar bem à bola, que pode não ser uma qualidade física, mas fica sempre entre amigos.

 

Jogar bem à bola ou passar fome podem ser duas vias para não serem lembrados pelo “o careca”, mas nem toda a gente pode ser o Zidane ou o Ghandi.

 

E a frase “É dos carecas que elas gostam mais” foi inventada para que os carecas não fiquem tristes. As mulheres também gostam deles, e podem ser os predilectos delas principalmente se eles tiverem muito dinheiro. Se bem que se tiverem muito dinheiro, põe implantes como fez o Tony Carreira. E por mais que ele o tente esconder, estamos todos carecas de saber.

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 17:19
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Terça-feira, 18 de Março de 2014

É a história das abelhas

Saem de casa para recolher o seu alimento. Eventualmente fecundam os grão que descobrem. Eventualmente, um dia saem de casa definitivamente. Certamente que recordarão sempre o seu habitat natural. Como estava comigo. Como estará agora? Como estaria se eu lá estivesse? Há, no entanto, um hábito que mantêm, independentemente do local onde habitam. Voltam sempre a casa porque, claro, foi lá que habitaram, dormiram, brincaram, “cozinharam” o mel do qual se haviam apropriado em outras alturas. Um olho lá outro cá, nunca se sabe se a sua partida terá sido um golpe demasiado rude. Apenas pelo bem dos insectos que lá vivem, poderá ter de ir colocar ordem na colmeia.

 

E acaba mesmo por voltar para apagar algum incêndio que floresceu subitamente. Antes que outros o façam e lhe roubem o mérito. A abelha, que não gosta nada de fumo, quer apagar o fogo. Mas, para isso é preciso ateá-lo ainda mais. Aplicar gasolina no local da combustão pode ser um bocado duro, mas não para a abelha preocupada e voluntária. Quer manter aquele porto seguro, embora já não seja seu. Acaba por não se queimar, já os ”abelhos” que fazem daquela colmeia correm riscos imediatos, primários e simples: perder tudo.

 

Alguém deu uma pancada forte na colmeia e agora as abelhas andam em voltas enlouquecidas em redor do cortiço. As asas batem umas nas outras tanta é a aflição. Abelhas vindas de todo o lado, com curiosidades e feitios, espigões mais e menos aguçados, davam a volta ao quarteirão. Há quase setenta anos que não se via nada igual. Vizinhos, vizinhos dos vizinhos e vespas desconhecidas esticam o pescoço e, algumas chegam mesmo a zumbir. Avisos, opiniões, desculpas provenientes de rainhas dos quatro pontos cardeais, que põem ovos e ditam leis, experientes no exigente xadrez da sua própria casa, inchadas e com um espigão tão grande quanto assustador.

 

O mel é doce. Abelhas desesperadas bezzzzzzzzzs por todo o lado e mãos largas que chegam a oferecer pólen para não perder o mel de vista. Nunca o haviam provado até agora, mas parecem dispostos a fazê-lo mais do que nunca para demonstrar a sua boa intenção. Sempre ouviram dizer que era bom de mais para não se ter, historicamente bom. Sábio que é sábio tem-no no armário para as eventualidades. Será que devem acreditar mais neste, naquele ou na abelha regressada?

 

A abelha quer ordem na Crimeia, perdão, colmeia da qual nunca se distanciou mais do que o necessário porque fez parte de uma história que mantém irracionalmente viva e, essencialmente, ser-lhe-á útil. Repete-se o ciclo da história, como foi há décadas atrás. As circunstâncias da vida, só o são porque alguém agiu de alguma forma. E as abelhas são convencidas que aquilo é o melhor para todos. É o bem “abelhano” que está em causa, o comum, claro. Mas há sempre alguém que nunca deixou de deitar olho àquela colmeia. Talvez chegue a ser uma desculpa, ou um escudo para se proteger, ou até uma pequena bicada.

 

 

A História do mundo é um romance

desastrado e mal escrito. Sem ordem,

composto por frases que se contradizem

bruscamente; demasiado imprevisível

e demasiado previsível.

E nem sequer é fábula;

a moral mínima nunca é atingida;

sempre lá por baixo.

Romance escrito por alguém

que ainda está a aprender a ser louco

(loucura inábil; loucura que ainda procura

agarrar-se a um pouco de lógica) – eis a História.

De resto, na Ucrânia a História avança, ou seja: recua.” 

Gonçalo M. Tavares

 

 

 

Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 01:23
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