Quarta-feira, 11 de Dezembro de 2013

Ficar-te-ei a desejar até te ver com merda na boca

As pessoas podem muitas vezes valer pelos valores que têm, mas em grande parte valem apenas pelo valor que lhes atribuímos.

 

E a primeira imagem é perniciosa a etiquetar aquilo que vemos. Se alguém nos dá o que queremos, por mais básico que seja, vamos ficar com aquela impressão de “Era um gajo destes que devia mandar no mundo. Aposto que num qualquer domingo à tarde, acabava com a fome e com a SIDA.” Mas se o balanceamento for feito para o lado errado, “cobras e lagartos” serão ditos e pensados sobre aqueles estafermes que mereciam apenas acabar na cruz depois de divididos a meio pela força de uma chibatada seca.

 

Por exemplo, paramos à frente de uma passadeira para alguém atravessar. Só que esse alguém está a usar o maior decote que a indústria têxtil inventou, tem um sorriso desenhado por um mestre do realismo, tem a sedução na leveza dos passos que nos acertam os batimentos cardíacos por cada vez que os seus pés tocam o chão, naquelas longas pernas que se deixam ver desde o topo das coxas. A imagem adquire um tom sépia e o caminhar torna-se numa câmara lenta encomendada pela sedução.

A impressão é tão boa que, em conversa com amigos, minutos, horas, dias, anos mais tarde, vai ser recordada de modo a fazer salivar os neurónios naquela parte do cérebro responsável pelo prazer.

 

O mesmo exemplo, ela está de novo a atravessar a estrada, mas ao segundo passo o salto fica preso entre dois paralelos e faz uma expressão de horror na tentativa de os desprender que nos faz largar o almoço de mil novecentos e noventa e seta pela boca. Como se não bastasse, aparecem dois homens do lixo que a apalpam, um mendigo que lhe leva a carteira. Até que na sua direcção corre um rinoceronte sem vontade de abrandar e do céu desce depressa um piano de cauda. E ninguém sabe qual vai chegar primeiro: o rinoceronte, o piano, o ataque cardíaco?

O exemplo talvez tenha sido exagerado, mas desta vez ficamos sem história para contar aos amigos, apesar de ser a mesma pessoa e de ter as mesmas características. Neste caso, o máximo que fazemos é visitar o psiquiatra, a repetir a frase “Assisti ao início do armagedon”.

 

Os factores externos e o comportamento desviado de alguém conduzem as nossas percepções para fora de uma realidade. Podemos ir jantar com o CEO da Apple, mas se ele tiver um pedaço de azeitona nos dentes, não o vamos levar a sério. Podemos dar vinte cêntimos a uma sem-abrigo que nos responde com um sorriso e para nós é já alguém com capacidades para ter uma vida melhor.

 

E assim continuamos, todos sem excepção, a criar imagens a partir de primeiros sorrisos ou caras feias.

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 19:05
Link do post | COMENTAR | Favorito
1 comentário:
De golimix a 12 de Dezembro de 2013 às 18:27
Por isso prefiro ficar-me pela segunda opinião!


Comentar post

!>Pesquisar neste blog

 

!>Junho 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


!>Arquivos