Quinta-feira, 14 de Novembro de 2013

Parte dois de dois

A minha mãe mandou-me enterrar o meu irmãozinho, ainda não éramos gente. Nenhum dos dois. Pelos vistos era o mais robusto, era só o que trabalhava mais. Peguei numa caixa de sapatos deitei-o ao lado do meu tio mais velho, morrera novo na Guiné, com paludismo. Não tive coragem de chorar e senti que nunca mais teria legitimidade para tal. Lá estaria bem guardado e seria bem guiado na outra vida, uma egoíce dos mortais, pensarem que há vida para além da morte.

 

Ela acenava com a cabeça, acomodada, via-se que era mulher de poucas palavras, más memórias. Assim, esquecia as agruras da vida. Os soluços quebraram o silêncio que saía da sua boca. Eu continuava, a esbracejar como se apregoasse a boa nova. As lágrimas fazem esquecer as aguras da vida, chore, mas não grite. Não se deixe levar pelo medo. Acho que tive a decência de encarar o mundo, sempre sério. Sou mais pequeno do que ele. Uma formiga obediente, escrava. Como você. Chora mesmo há minha frente, mas não é capaz de dizer algo, pensei pouco incomodado com o facto.

Não há teoria geocêntrica nem somos o sol. O mundo é. A natureza é. A vida é. Deixemo-nos de ser virgens ofendidas. A mulher susteve a respiração e endireitou as costas, como que assumindo uma posição mais rígida, mas aceitando o lenço dum velho, homem rigoroso e abrupto, mas media o que dizia. Contradizia-se para se fundamentar. Não controlamos nada, nem a tremideira das minhas mãos, tal como no amor. É terreno encharcado, duvidoso e perigoso, como o gato que enterrei.

 

Ela manteve a postura direita e desviou novamente o olhar para a vitrina. Assentira ao que eu dissera, mas não queria que eu percebesse. Não queria dar a entender a sua fraqueza, ficaria demasiado desprotegida perante mim. Sabe, continuei para acabar com aquele constrangimento, há mais de dez anos que me pergunto se a vida é para ser mesmo vivida, talvez há mais, desde que tomei consciência da minha triste realidade. Ela voltou a olhar para mim, mais confortável, igualmente interessada embora não o demonstrasse. Como se já houvesse uma certa equidade entre nós.

 

Encolheu os ombros e finalmente agiu de forma espontânea, numa expressão áspera, mas verdadeira. Havia mais para além das diferenças na leitura. Decidi tocar no ponto. A mim já não me faria diferença. Vivo comigo e já me habituei a decifrar a argumentação do meu raciocínio. Normalmente é duro comigo, mas só porque quer raciocina. Falei, rápido, antes que me arrependesse, pouco preocupado caso me julgasse doido. Talvez fosse um alívio.

São mais os desiludidos com o amor do que os iludidos. Não falava o raio da velha. Nascemos amados, tentava aliviar qualquer coisa nela, é o que está errado. Deus fez o mundo todo ao contrário. Finalmente olhou-me novamente, mas não desperdiçara palavras. Devíamos nascer odiados e há medida que íamos errando, o amor ia aumentando. Esse amor seguro destrói-nos. Estamos habituados a ele e depois amuamos como crianças, mas com um sorriso mentiroso estampado. Qualquer coisa brilhava na cara dela, agora mais fechada, escorria pela pele seca.

 

A menina Marina, fez um gesto com a mão dirigida à velha e sorria, enquanto ouvia os meus braços a falar. Ela levantou-se e entrou na porta por onde surgira a jovem. Ela é surda senhor Anacleto. Congelei, como havia congelado ainda moço. Agarrei na alma, tranquei-a mais uma vez cá dentro.

 

Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 13:47
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