Quinta-feira, 14 de Novembro de 2013

Dias do fim!

Onde é que há mais velhos que numa danceteria ao domingo à tarde? Num centro de saúde.

A sala de espera parece cheia de pessoas prestes a entrar num autocarro para excursionarem até Fátima, para ver o Santuário e rezar um terço.

 

Mas não. Estão sentados, de peles enrugadas, olhares de derrota e manchas roxas na cara, à espera que lhes chamem o nome com uma voz de telefone. Coçam-se, olham o relógio, tossem, desbloqueiam a garganta num tom viril, que aterroriza desatentos, e voltam a tossir numa repetição de ciclo.

 

Reina o negro e os xailes na cabeça. Impera o aroma a naftalina. São comuns lenços de assoar e óculos graduados de ver ao longe para ver se a morte ainda não vem lá. Os olhos espelham um único pensamento fácil de adivinhar “Meu querido último dia, que te adivinho sofredor pelas dificuldades que já sinto, não chegues hoje que eu gostava de voltar a juntar filhos e netos num domingo de sol.” E aquele Deus em que acreditam faz-lhes a vontade de adiar o último suspiro. E voltam a tossir, a olhar os ponteiros, a desobstruir a garganta e a lançar tosse para onde viram a boca.

 

Nas pernas de um velho, o único que não se lamenta entre lamurias sussurradas, está uma criança de colo, a dizer palavras que ninguém percebe. Como fazes o teu avô feliz com o poder desse gugu-gaga imperceptível. Tens o poder de colocar cor na palidez desse velho. O avô, com um sorriso de adolescente, a fazer inveja ao aspecto soturno dos demais, que expressam saudades mentais dessa meninice distante, brinca com a criança, pondo-lhe a língua de fora, esperando que faça o mesmo.

 

No resto da sala, entra e saem, sentam e levantam, num ritual de espera e lamento. Não por esta ordem, não na mesma medida. E enquanto esperam, tossem, suspiram, fazem barulhos com a garganta e desesperam com as horas, porque o tempo já é curto para quem acha que a vida já entrou em compensação.

Entram e saem, pessoas diferentes que parecem a mesma, o que prova que a grande missão da vida é adiar a morte e o segredo é procurar ficar vivo mesmo depois de já cá não estarmos.

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 13:45
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