Terça-feira, 2 de Julho de 2013

Porque é que estou numa cadeira de rodas?

Sempre gostei de me lavar. Lavo-me com alguma frequência, até. Nesse dia estava a lavar-me. No momento importante de ensaboar as axilas, o rádio toca Abba. Eu deixo-me entusiasmar. Há duas coisas que me entusiasmam: tudo o que é de graça; e dançar “Dancing Queen” quando estou sozinho, porque posso arriscar movimentos mais espontâneos sem que me apontem o dedo. Num clímax inexplicável de excitação, não resisto a um movimento mais arrojado. O pé apoia-se mal no chão e no chão, apoia-se o meu corpo todo, vindo de uma queda não calculada. Espero sinceramente que as minhas costas não tenham magoado o polibã, porque o polibã quebrou-me duas costelas e deixou-me o maxilar esmigalhado. Ele não se vai ficar a rir. Quando descobrir qual é o maior medo dos polibãs, elaboro um plano e faço aquele cabrãozinho sofrer.

 

Tento recompor-me e depois de reunidas as capacidades fundamentais para me levantar, surge um elefante que me usa como apoio para as patas da frente. Não sei se sabem quanto, em média, pesa um elefante, mas seguramente tem um peso superior ao que o meu corpo pode suportar. Com a mesma rapidez com que chegou, desapareceu. Parecia que só apareceu para dizer “Olá”, mas um daqueles olás de esmagar a vesícula e amassar a caixa torácica. Não sei se já tinha dito mas os elefantes são um bocadinho para o pesado. Bichinhos que não vão em conversas de nutricionistas.

 

Quando estou de pé (a muito custo), vejo uma bola de basebol a vir-me na direcção da cara. Desvio-me ao último pentelho. (Expressão científica que traduz o momento em que o medo nos faz tão instintivos que agimos com uma rapidez de fazer parecer o TGV uma carroça puxada por duas éguas coxas.) Neste caso, assumo as culpas por fui eu quem lhes alugou a casa de banho para treinarem. O estádio deles está em obras e como não sou capaz de dizer “Não” a ninguém, cedi-lhes as minhas instalações sanitários. Também estou a alugar para baptizados e convenções sobre doenças patológicas.

 

Estava a ser um dia normal com a excepção de serem três da tarde e ainda não ter posto comida à tartaruga. Pensei “Estou nu, estou cansado, estou dorido. Não conheço ninguém que tenha dormido sóbrio numa casa de banho, mas o que tem de ser tem muita força.” Santa soneca. Acordei mais novo vinte anos (sentia-me assim apesar de permanecer com a mesma idade), apesar de agora estar fechado numa cave escura ao lado de duas malas de viagem cheias de notas de cem. Dois polícias arrombam a porta. Foi a opção mais correcta, até porque tocar à campainha já não se usa desde o tempo das calças à boca de sino. Deram-me com um taser porque logo assumiram que eu era o vilão. Pelo menos, eles disseram-me que era um taser. Aquilo a mim parecia-me um berbequim. Tanto é que quando acordei tinha três parafusos na clavícula.

Os dois polícias explodem. Um vira um líquido verde, o outro um kebab com molho especial. Fiz como a minha prima, comi-o porque me pareceu rico. Antes, rico a nível monetário. Agora, rico em nutrientes. Dois tipos muito importantes de riqueza, ainda que o segundo um bocadinho esquecido.

 

Sem aviso, o chão subiu derrubando tudo o que sustentava até se tornar no topo de um arranha-céus. Cá em baixo tribos fenícias lutavam pela vida contra um grupo organizado de vendedores de bolas de Berlim. Como era de esperar aquilo levantava muita gravilha. Gravilha? Eram calhaus que pareciam montanhas. Ah, pois eram. Levei com um nas rótulos que me projectou para o chão a uma altura equivalente a um prédio de trinta andares.

 

Aquando o momento de bater com as costas no chão, qual não é o meu espanto imediato quando me apercebo que ele é feito de Coca-cola. O que me soube bastante bem, porque estava de ressaca, o que me fez assumir que nada disto aconteceu. Estava apenas muito bêbado e toda a gente sabe o quanto dolorosa a embriaguez pode ser.

 

Porque é que estou numa cadeira de rodas? Não estou, mas tenho o cérebro feito em papa. Se alguém quiser trazer uma colher dá para duas pessoas, à vontade.

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 20:32
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1 comentário:
De golimix a 11 de Julho de 2013 às 17:30
Johnny, o maior medo do polibã é a banheira! Ameaça que colocas uma no seu lugar e vais ver como ele sofre!!!


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