Quarta-feira, 12 de Junho de 2013

Escrever a meias #5

 

Corrida para algures

 

O despertador tocou e ele abriu os olhos, esbaforido. Se havia algo que o deixava indisposto era acordar com palavras estranhas, como esbaforido. Carregou no snooze e permitiu-se mais nove minutos de indolência, que lhe permitiriam habituar-se à ideia de que teria mesmo de se levantar. Quatro carregadelas depois já não estava esbaforido (gostava mesmo daquela palavra, tinha de investigar o que significava) mas bastante atrasado.

 

Esse é um dos problemas dos relógios despertadores, são sensíveis aos nossos adiamentos, sem nos incutirem uma ponta de culpa que seja. Um bom despertador deveria permitir um adiamento, sendo que o segundo toque seria bem mais sonoro, o terceiro esbofetearia o dorminhoco e o quarto catapultaria o dito para a casa de banho. Olha que bela ideia, tinha de escrever isso no seu caderninho “Ideias que me farão rico”. Mas naquele momento não tinha tempo, estava atrasado e sabia que quem o esperava não mostraria clemência.

 

Enfiou-se na banheira e abriu furiosamente o jacto de água, que lhe acertou em cheio nos tomates. O frio que o percorreu fê-lo tremer de tal forma que, a acreditar na teoria do caos, se teria extinto alguma raça algures na micronésia. Que se lixassem os bichos, a sua verdadeira preocupação era ressuscitar a sua genitália. Esfregou, esfregou e teve de parar, pois por muito que gostasse do rumo que o banho estava a tomar, continuava atrasado e a higiene por fazer. Saiu a pingar da banheira e agarrou na lâmina de barbear, pensando se deveria passá-la pelo rosto ou pelos pulsos, pois o atraso era já irrecuperável.

 

Sentou-se na beira da cama, enquanto se vestia, começando a imaginar qual seria a desculpa mais plausível para apresentar. ET? Demasiado visto. Morte de familiar? Já não lhe sobravam muitos, especialmente depois de ter “morto” o primo em terceiro grau pelo lado da mãe. Directa a trabalhar? Os vincos que tinha na cara eram claramente de almofada, não de teclado. Que tinha sido esbaforido pela vizinha? Convinha primeiro ver o significado da palavra. Bom, haveria de pensar em algo no caminho. Abriu a porta e... não aconteceu nada. Absolutamente, nada. Tudo igual, com a diferença de que ele estava já a dever 27 minutos ao mundo. Apressou-se, então.

 

A reunião era importante. Ainda não o esperavam. Antes pelo contrário, sentou-se numa cadeira antiga a um canto daquele escritório poeirento, preparado para não deixar entrar luz, nem que fosse dividida em raios, e limitou-se a esperar. Foi então que ele chegou. Nem bater à porta, nem “dá licença”. Deus, Senhor, Emanuel, o Criador, o Salvador, aproximou-se dele com o mesmo respeito com que se abeira uma rulote de bifanas. Ficou de pé, ao centro da sala, reprodução exacta de teocentrismo, fazendo-o sentir-se um comum peão que espera pelo sinal verde para avançar, só não tinha onde apoiar o cotovelo.

 

Deus, Senhor, Emanuel, o Criador, o Salvador… Só os nomes deixavam-no esbaforido. E o que o esbaforia mais era conjugar verbos dos quais desconhecia o significado. Ouvia-se o pensamento daquele homem “Sai-me da cabeça palavra filha de uma puta.” E antes que o criador começasse a falar, pegou no caderninho “Coisas que me farão rico”, e gatafunhou “arranjar um cognome”. Deus tinha uns tantos e era respeitado, se ele tivesse um talvez ficasse mais perto da vénia alheia e do beijo no anel. Quer dizer, toda a gente o tratava por “Pastor”, mas o mais próximo que ele tinha de uma ovelha era uma camisola de lã. Mas “Pastor” era um sinal vermelho à sua ambição. Queria qualquer coisa como “o Virtuoso”, “o dos Mil Saberes” ou “Sabichão”.

 

Deus começava a falar-lhe e como todos os chefes, nem um único elogio lhe teceu. Foi directo ao assunto, ríspido, sério e gelado. Eu próprio já narrei muitas histórias de figuras mais ou menos ilustres e nunca vi ninguém tão impessoal. Se me permitem opinião: para ídolo de muita gente e para continuar a desiludir, só lhe bastava cobrar uma fortuna por uma fotografia e nem sorrir para o flash.

 

Com um tom pouco expressivo, relatava uma lista de trabalho ao pobre pastor que ainda há pouco estava tentado a brincar com a pila e agora tão aborrecido a ouvir o patrão. Mais do que aborrecido… nervoso, daquele nervosismo de alguidar cheio em que basta uma gota para haver uma explosão em forma de cogumelo. Muita tensão acumulada. Muitos anos a receber ordens e nenhum elogio. Demasiados “faz isto, faz isto” contabilizados. Sempre disponível a ouvir os problemas das pessoas e ninguém para ouvir os seus.

 

Esbaforidíssimo! Exausto de esbaforismo! Esbaforidamente incontrolável! Já de mãos, braços, pernas e pensamento ofegantes. Demasiada tensão para se conseguir controlar.

 

Eu sabia que ele não mostrava clemência perante atrasos. Ainda mais quando estes são uma consequência da preguiça. Com ele, não! As gotas de suor escorregavam esbaforidas pela sua testa. Que diria? Perguntava-se enquanto tentava arranjar as palavras certas para dar a volta ao “lord”, como gostava de ser tratado em dias de festa. De súbito, veio-lhe uma ideia à cabeça. As pingas de suor adensaram-se; baixou a cabeça, como se tentasse recolher forças do chão para enfrentar aquele momento; levantou-a repentinamente; Deus, Senhor, Emanuel, o Criador, o Salvador franziu as sobrancelhas ao mesmo tempo que o seu pé direito recuou ligeiramente. Parecia ter perdido a expressão de superioridade com que alí havia chegado.

 

Ergueu-se bruscamente, a cadeira caiu para trás sincronizada com o seu movimento ascendente e gritou, “tu lês-me a mente caralho, p’ra qué que vou estar aqui a inventar? És igual ao big brother, cheio de idiossincrasias (tenho de ver o que quer dizer), mas sem a Teresa Guilherme (tenho de ver quem é), p’ra qué que queres que justifique o meu atraso?”. Soltou posteriormente um suspiro esbaforido enquanto reflectia, e um silencio gélido apoderou-se da sala, já fria e sombria de si. “Nem umas flores são capazes daqui pôr para disfarçar a falta de luz” e puff! Logo aparecem belíssimos vasos de camélias em redor da sala. Hum... Assim, sim, já via um líder ali. Um gajo que tem cinco nomes e capacidade para pôr em prática as ideias dos outros sem ficar mais esbaforido do que eu.

 

E disse ele para não esquecer que podia ser o criador do mundo e, como tal, haveria uma grande probabilidade de ter desenhado tanto os seus traços físicos como mentais. Sabia, portanto, aquilo que ele pensava e o que era capaz de fazer, dizer ou quando largava uma bufa “ninja”. Não ficou impressionado. Ele era um hipster (tenho de passar pelo livro dos significados) e tinha de seguir as suas convicções. A negação da cultura de massas era uma delas e, como tal recusou a lista de funções que Deus, Senhor, Emanuel, o Criador, o Salvador lhe queria delegar, assim como o copo que o havia mandado beber.

 

As suas nadgas estavam quadradas. Aliás, creio que há anos que não as levantava daquela poltrona mole, dolorosa, aborrecida. P’ra quê, se podia estalar os dedos? Há séculos que não sabia como continuar a lutar dentro daquelas quatro paredes. Há milénios que pregava a bom pregar, esbaforindo-se sem resultados práticos no que diz respeito ao acto de implorar pela atenção de todos para o que se avizinhava. E agora todos lhe davam agora razão, mesmo os que não gostavam de o ver junto à oliveira, quando afirmou que o azeite deixaria de ser “extra-virgem”, como a sua mãe, esbaforida de carregar tal peso no seu ventre.

 

Já de pé, começou a caminhar em direcção incerta (para quem observava – retirava isto), mas muito certo das suas intenções. Na estante, cheia de livros antigos onde habitava todo o pó daquela sala, pegou no dicionário. Abriu na letra “D”, folheou até ao “E”. Deus, Senhor, Emanuel, o Criador, o Salvador observava-o, a pregar mais vinte, trinta, cem mandamentos. (E quando Deus prega, há trovoada na Terra! É certo.) “Esbaf…”, “Esbafo…”. Seguia com o dedo o caminho no livro para encontrar o “x”, neste caso a palavra da sua preocupação. “Esfaborido: adj. masc. sing. Ofegante (a ponto de não conseguir falar)”. A luz que faltava na sala, invadiu a sua cabeça. Voltou-se para trás e soltou as palavras quase mecânicas “Pai, já lá vai o tempo em que eu transformava água em vinho, fazia caminhar os paralíticos e morria na cruz para salvar o mundo. Já ninguém sabe quem sou. Limito-me a pregar a tua palavra numa igreja universal.”

 

A inexpressão de Deus, deu lugar a um rosto triste e escorreu-lhe uma lágrima, apesar dele ter tentado disfarçar. Jesus, o “Pastor”, retirou o caderninho “Ideias que me farão rico”, onde tinha notas interessantes como “arranjar outro emprego”, “outra merda qualquer” e “inventar um despertador progressivo”. Riscou o título e escreveu em cima “Ideias para pôr em prática exactamente agora”. Abandonou a sala, ela ficou ainda mais escura como que a testemunhar a separação entre pai e filho que tinha resistido mais de dois mil anos.

 

 

 

Saudações ao Rafeiro Perfumado. Saudações boas e frescas,

como se querem todas as saudações. Obrigado!

Publicado por Universo de Paralelos às 19:18
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3 comentários:
De Rafeiro Perfumado a 13 de Junho de 2013 às 21:54
Qualquer continuação que leve a palavra "esbaforidíssimo" está mais do que aprovada!


De jabeiteslp a 15 de Junho de 2013 às 12:16
Grande dissertação e veia...

bom e grande fim de semana


De golimix a 27 de Junho de 2013 às 16:54
Esbaforiderrimamente falando este textondeixou-me com esbaforidos comentários para dizer.... por isso esbaforo-me por aqui assim.


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