Terça-feira, 21 de Maio de 2013

A primeira vez que morri

Dizem que as primeiras vezes são especiais e esta não foi excepção. Corria o ano da graça D’el Rei que não existe, porque vivíamos numa república e eu estava, como nos outros dias todos, a comer uma tangerina em cima de um touro no cio. Como era de prever morri com tuberculose.

 

No início não compreendi o que se passava e as perguntas levantaram-se com rapidez e repetição matemática. Onde estou? Como vim aqui parar? Porque é que estou a usar umas calças amarelas?

 

Ouvi música agradável e como qualquer homem inteligente decidi segui-la na esperança de encontrar mulheres quase nuas e parcialmente bêbadas. Em vez disso, caminhava sob um tapete feito de ramos de alecrim e folhas de oliveira que me traziam à memória o aroma agradável de um paraíso mediterrânico ao despertar do sol. Ao meu lado surgiam corredores de mulheres em tronco nu, que tocavam em harpa o Hino da Alegria, num tom sério. Vestindo um smoking do qual os vincos nem sonhavam aproximar-se, um mordomo distribuía por mim, e só por mim, rissóis de leitão e cerveja fresca. Naquele enorme corredor fez-me companhia um indivíduo ao qual comecei por apelidar de maricas, mas que depois acabei por perceber que era o António Variações. Diz-me ele “Tenho que ir comprar comida para o peixe.” Disse-lhe “Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje.” Rimos os dois como que se tivéssemos fumado uma tonelada de haxixe.

 

A viagem estava a ser agradável. Nem tive que fazer check-in, porque a funerária tratou de tudo, e caminhava na companhia de uma figura distinta. Apareceu Deus a comer Donuts e a chupar o açúcar dos dedos. Eu sabia que ele era guloso ao ponto de fabricar seres humanos como a Rosie Jones ou a Joana Duarte, mas não o imaginava tanto. Mostrou-me os cantos à casa. Só duas reclamações: A piscina tinha um gafanhoto morto a boiar e no céu, os alemães também usam meias e sandálias de praia. O quarto era espectacular. Era num edifício central, com jacuzzi e minibar recheado e grátis. O único senão é que cada vez que o queria abrir tinha de rezar um Pai Nosso.

Este pessoal cá no paraíso tem um ego que valha-me deus, não dá uma sem pedir logo duas. “Eu deixo-te beber um copo de Jack Daniel’s, mas antes tens de dizer uma lengalenga para mostrar que me adoras”. Gente picuinhas…

 

Voltei à Terra quatro dias depois porque disseram que eu era um génio e que fazia lá falta. Para mim, foi por ter feito quatro vezes cocó na recepção do hotel, mas toda a gente sabe que um gajo quando está apertado parece que deixa de pensar e qualquer lugar serve. E ninguém lhes manda ter uma recepção com azulejo espelhado.

 

Acordei, em pé, confuso, em frente a um balcão de café, onde um homem me perguntava “O seu café é curto, cheio, normal ou com um pingo de mijo?” e logo se levantaram as questões que me pareceram apropriadas. Onde estou? Como vim aqui parar? Porque estou a usar umas calças amarelas?

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 12:58
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