Domingo, 28 de Abril de 2013

Escrever a meias #3

 

 

UMA FAMÍLIA EM PERIGO

 

Ele estava brutalmente arrependido da decisão que tomara há umas semanas. O que lhe passara pela cabeça para trazer a família a este local? Sim, que falta de lucidez o atingira, que irresponsabilidade o dominara, para se lembrar de meter a mulher e os dois filhos, um rapaz e uma rapariga, de cinco e oito anos, num avião a caminho de um inóspito e selvagem local?

E agora, ali, em frente daquele terrível cenário, ele sentia a angústia do pai, a angústia do líder daquela equipa, onde tudo era harmonia e bem estar, menos a situação trágica em que se encontravam!

 

Como fora possível? Sim, como fora possível tudo ter acontecido tão depressa e de forma tão imprevisível, e em apenas dez minutos a vida de todos eles ter mudado de uma forma tão brusca e aterradora?

Meia-hora antes, apenas meia-hora antes, eles não estavam como agora, na boca daquele inferno, em perigo de vida. Meia-hora antes, eles estavam dentro de um Jeep, confortáveis os quatro, a sua mulher ao seu lado, ele a conduzir bem disposto, os dois miúdos alegres no banco de trás. Meia-hora antes, aquela viagem à selva parecia maravilhosa, o hotel era excelente, a piscina agradável, o tempo estava óptimo, a margarita que tomara soubera-lhe divinamente. E depois isto...

 

Primeiro, o gaguejar do motor, seguido de uma paragem absoluta do carro, apenas se ouvindo um som, repetitivo, um ting...ting...ting, de três em três segundos, a anunciar que o carro tinha uma avaria. E o pior é que, mal saíram do carro, perceberam que os telemóveis não funcionavam, não existia rede naquele local. Tinham andado quilómetros demais naquela savana, ou selva, ou lá o que era que chamavam àquelas zonas nas aulas de geografia.

 

Sentiu-se estúpido, ali parado, a olhar para o carro. Fora ele que tomara a decisão de dispensar qualquer guia local, não precisava deles, sabia safar-se em qualquer circunstância, e agora a mulher olhava-o com aquela cara dela, recriminando-o, como sempre fazia em casa, quando ele se esquecia de ir despejar o lixo e os cães da vizinhança vinham mordiscar nos sacos, deixando uma sujeira enjoativa no chão, como rasto da sua passagem. 

 

O jeep parecia moderno, elegante, robusto, tinha mudanças automáticas e GPS, mas a verdade é que dera o berro e não havia forma nenhuma de voltar a pegar. Tiveram portanto de tomar uma decisão que, no momento em que a tomaram, lhes pareceu acertada: regressariam a pé à estrada principal.

Afinal, pensara ele, só tinham andado dois ou três quilómetros, não podiam estar muito longe. Só que, andar com GPS no carro é fácil, muito mais difícil é andar a pé fora de estrada, em trilhos na terra. As árvores ao princípio parecem diferentes, mas meia hora depois já parecem todas iguais, e obviamente perderam-se.

Sim, perderam-se. Ele achava que se haviam desviado demais para a esquerda, mas o resto da família dissera, por várias vezes, que iam na direção certa, e ele deixara de os tentar contrariar. E agora mortificava-se. Porque não confiara no seu instinto de orientação? Ele sabia que tinham descido uma elevação, mas não lhe parecia a mesma elevação que eles haviam subido, momentos antes de verem o grupo de tigres atrás deles.

 

Eram três, uma troika deles, e todos bastante grandes, embora não lhe parecessem gordos, o que era mau sinal. Se estivessem mais pesados, era sinal de que tinham comido, mas assim não. Os tigres vinham atrás deles porque estavam com fome, e foi assim que o inferno deles se tornou uma realidade.

 

A princípio, ele não entrou em pânico. Embora não tivesse nenhuma arma com ele, nem pistolas nem facas, sentiu durante uns minutos uma espécie de inconsciência, um ataque absurdo de crença em si próprio, como se não tivesse qualquer dúvida de que iria resolver aquela situação, e que os tigres não os iriam atacar. Pelo menos, pensou, antes de chegarem à estrada.

 

Contudo, não havia nenhuma estrada à vista e isso abalou-o. Isso e o facto de a mulher e os filhos terem começado a berrar, em pânico, quando viram os tigres a aproximarem-se. Num breve segundo, tudo se descontrolou. Um dos tigres começou a correr, e como que por imitação, tanto a mulher como os seus filhos desataram também a correr. Ele bem gritou, mas eles não esperaram, e ele não teve outro remédio a não ser segui-los, pois eles estavam a afastar-se e os tigres a aproximar-se.

Minutos mais tarde, arrependeu-se de ter corrido. Se não o tivesse feito, talvez a sua família se tivesse salvo. Se ele tivesse ficado para trás naquele momento em que começou a correr, provavelmente os tigres ficariam junto dele, provavelmente ele teria sido atacado, teria sido morto, comido pelos três tigres, mas a sua família ter-se-ia salvo. Depois de alimentados, os tigres já não os seguiriam, e a mulher e os filhos teriam tido a oportunidade de fugir para longe.

 

Foi esse o seu mais grave erro. Em vez de se oferecer aos tigres, correu atrás da família e acabaram todos onde estavam agora, à beira de um precipício altíssimo, sem saída. À sua frente, a pouco mais de dez metros, os três tigres aproximavam-se dele, da mulher e dos filhos. Atrás deles, eram vinte e tal metros a pique, um precipício como nunca vira, uma encosta vertical, e lá em baixo um rio, agitado, tumultuoso, com rochas a rasgarem a água e a mostrarem os caninos.  Como tigres...

 

As crianças berravam, a sua mulher berrava, e os tigres aproximavam-se. O que podia ele fazer? Lutar com os tigres, oferecendo-se em sacrifício? Mas, de que lhe servia fazer isso em frente da família? Depois de o matarem a ele, os tigres matariam a mulher e os filhos.

E poderiam saltar lá para baixo? Mas como, se o filho de cinco anos mal sabia nadar, e a filha de oito tinha um terror das alturas e jamais seria capaz de saltar? Mesmo a sua mulher, duvidava que fosse capaz de um mergulho daqueles.

Ele enfureceu-se consigo mesmo, como fora possível ter tomado tão más decisões, ao ponto de ser forçado a escolher entre a sua família inteira morrer nas garras dos tigres, ou ter de mergulhar num abismo aterrador com mais de vinte metros de altura?

 

Os tigres aproximavam-se, passo a passo, parecia que sabiam que tinham vencido, e que não valia a pena apressarem-se, o festim estava garantido...Foi ao aperceber-se disso que ele decidiu. Olhou para a mulher e para os filhos e disse...

 

- Calma, gatinho. – disse aquele homem nervoso com a segurança da voz trémula, enquanto passeava a mão pelos bolsos na tentativa de encontrar algo. E encontrou, mas não um revólver ou a máquina do tempo que o tiraria com alguma facilidade daquela situação.

Uma lanterna! Tirou-a com a pressa que a situação exigia pela proximidade daqueles antagonistas, que tinham nos dentes e nos olhos serrados a vontade de fazer dele uma refeição. Apontou-lhes nos olhos. Aqueles três bichos feios imobilizaram-se com a luz dourada, revelando o poder que as coisas douradas tem para acalmar este triunvirato.

 

Já não sabia o que mais fazer nem onde se meter, a sua última decisão apresenta-se agora mais errada do que nunca e dela poderiam depender algumas vidas. Nesta hora, tal como nos últimos tempos, não conseguira dar um passo sem que lhe olhassem por cima do ombro, sem que conseguisse um gesto orgulhoso dos seus mais que tudo, sem que pudesse ele próprio ser o tudo de outros tempos. Embora ludibriado, na sua juventude, ele havia sido tudo, tido tudo, dado tudo.

 

Sob o olhar atento da sua esposa agitada com a situação e de mãos nervosas a segurar as dos filhos, o chefe do agregado encheu os pulmões de desespero num pedido de ajuda que fez esvoaçar os pássaros, agitar os oceanos e acordar cadáveres do sono que deveria ser para sempre. Vibrou-lhe a palavra “Ajuda” da boca como vulcão cuspidor de lava na direcção da lua.

 

Calma lindos gatinhos - insistia em tratá-los assim, com a voz tremente, na tentativa de se acalmar, para ver se conseguia encontrar uma solução. Mas, na realidade, só conseguia pensar em chamar-lhes gatinhos e talvez gatunos, por lhe quererem roubar a vida mesmo quando tentava fugir à morte sociofamiliar completa na sua sina, assim como na da família.

 

Nunca pensara acabar ali, a gritar entre a fome animal e um precipício, tendo como música de fundo a voz da esposa sob a ordem de “Faz qualquer coisa. Rápido”, quando a sua secretária lhe reservou a suite do Africanzi para um descanso merecido que serviria também para tentar salvar o seu casamento, só por considerar a mulher um tigre que lhe queria morder metade do que tinha com o processo de divórcio. E tudo o que tinha queria para si. É certo que agora não pode ser acusado de passar pouco tempo com as crianças, mas certamente não era esta a forma preterida para o fazer. Ele acabou por descurar o necessário mais vezes do lhe me fora permitido, sem nenhum motivo mais forte do que o desinteresse pela vida conjugal e todas as obrigações que isso poderia acarretar, além do dinheiro que poderia ser gasto em coisas bem mais interessantes.

 

Mas, a realidade é que tudo corria mal desde que o Jeep avariara. Pensando bem, tudo corria mal há muito mais tempo, desde os dias sempre iguais em que chegava a casa tarde e saía cedo, em que até o beijo na testa dos miúdos se foi tornando num hábito perdido. Mas nunca chegou a casa a cheirar ao perfume de outra mulher, porque fazia questão de comprar para a secretária o mesmo que usava a sua esposa. Sempre se comportara como um menino mimado, estáva na hora de tomar uma atitude, mais brava e menos faminta do que a daqueles três.

 

Ao seu grito impetuoso assistia um homem loiro, não muito novo, que conduzia de tronco nu, calçando meias com sandálias, conduzindo um Jeep descapotável, que apesar do aspecto arcaico devia ter custado uma fortuna. Pensa Pasqual, pensa – dizia para ele próprio, já sem capacide de raciocínios elaborados, apelando ao homem ameaçado pelas feras. Tinha vontade de alimentar o seu ego, como um louco, mas também queria alimentar a opinião da sua família (eles podiam facilmente arrasar a moral de qualquer um), mas já não parecia possível. O tempo esgotava-se, fugia por entre os dedos e ele continuava parado, sem conseguir pensar, só ouvia os gritos que ecoavam atrás de si. O medo que galgava pelo corpo deles percebia-se perfeitamente, tanto que o viam como a sua última linha defensiva, viam-no como alguém capaz de decidir a situação da melhor maneira. Quem diria, eles que nunca contaram consigo para mais do que escolher a cor dos guardanapos para o almoço domingueiro.

Se ele saltasse, será que iriam atrás dele? Será que a sua mulher o seguiria sem pensar duas vezes? Mas afinal que importava isso, se ele só queria era sair dalí vivo? Se ele conseguisse desviar os olhares dos felinos para outro alvo, será que as feras aliviariam o fardo da sua decisão? Se sobrevivesse, conseguiria viver sem lhe apontarem a faca, o olhar, o dedo ou estará condenado a distribuir sorrisos hipócritas?

 

Os tigres soltaram um rugido tímido, mas controlador, como que se estivessem seguros que o banquete estava a ficar abundante em iguarias, e a sua dentadura confirmava-o. Estavam a uma distância de vigilância, deslocando-se em pequenos movimentos laterais, mas com o olhar sempre focado nas vítimas de um ataque que se adivinhava para muito breve. Olhavam raras vezes e nunca ao mesmo tempo, como um bando organizado, para o homem que esbracejava, em pé, em cima do seu veículo e gritava num português complicado, com algumas palavras imperceptíveis e o exagero nos “rrrr”. Gritou-lhe:

 

- Não pode morrer. Doutor Pasqual Correia, não pode morrer.

 

Fez um esforço para, no meio da previsão do seu fim que lhe ai passando na cabeça como película, se lembrar daquele homem. Ainda naquela manhã tinham tratado de negócios importantes junto à piscina do hotel. Lembrou-se por breves segundos, perdendo o sorriso assim que o seu pensamento voltou à selva e se lembrou que este nunca se fazia acompanhar de telemóvel. Os negócios são feitos cara-a-cara, a tecnologia não substituí o tacto do “bacalhau”. - dizia assertivamente como forma de vincar a sua posição de negociador nato.

Então, o homem que em Portugal estava prestes a ficar com a família desmembrada, se não fossem as férias em que se aplicava para contrariar esta tendência, sorveu-se de um egoísmo impar, de olhos vermelhos de fazer inveja à cólera, e sonhou em loucura, de se lhe escorrerem gotas da testa, no milagre da multiplicação das moedas; Só pensava como estaria bem em casa a jogar snooker, na sua única boa companhia caseira, o taco de snooker e o copo de porto.

O relógio mental apitava estridentemente, com se o quisesse acordar para a realidade. O ego exigia que os verdadeiros protagonistas demonstrassem uma atitude altruísta. A única parte que queria da viagem do herói eram as palmas no fim, não lhe interessando o esforço aplicado nas provações difíceis.

Se estivesse sentado no sofá, seria a banda sonora perfeita, as palmas, para um daqueles filmes de terror, mesmo daqueles que só fazem sentido no LCD, naquelas noites chuvosas de inverno.

 

Então, com leviandade desumana, decidiu que o mundo tinha muitas mulheres e ele não tinha de ficar com aquela; decidiu que se chegava a casa e não via os filhos, não os precisava de ver nunca mais. O homem que há pouco se queria sacrificar pela família, já não está disposto a fazê-lo. Se calhar nunca esteve, mas agora tem a certeza de que não está.

 

Um dos tigres, estimulado pelo apetite, dirige-se em passos lentos, cada vez menos lentos, em direcção à família que tinha um abismo como guarda-costas, sendo seguido pelos outros dois animais.

A proximidade já era pouca, eram muitos os gritos histéricos da mulher e a agitação e o choro das crianças que tomavam a vida, agora, como um bem preciosíssimo. A morte estava a poucos metros e previa-se que chegasse depressa com unhas, dentes e fome exorbitantes. Para engrinaldar o caos ouvia-se o estrangeiro louco aos saltos no capô da sua viatura:

 

- Pasqual, salve-se. Salve-se, Pasqual.

 

Pasqual estava de mangas arregaçadas e em posição de ataque. Quando os bichos corriam já perto de si, segurou o filho mais novo e arremessou-o na direcção do tigre que corria na frente. A mãe tentou salvar, aos berros de rebentar escalas, o seu filho que já era vítima de dentadas, mas foi impedida de correr na sua direcção pela filha mais velha, que não queria ficar sozinha perto do pai, nem que a sua mãe virasse refeição para as bestas. O homicida que tantas vezes alimentou a boca do filho, reverteu a situação e usou o filho para satisfazer a urgência de alimento do bicho. Lembrava-se disto e ria como um louco, ignorando o perigo por momentos. Quando se apercebeu dele, através do rugido de um inimigo ainda não saciado, arrancou a filha dos braços da mãe e voltou a repetir a acção, mas o medo não lhe permitiu entregar-se no lugar da primogénita.

 

Agora já não havia uma troika felídea atrás dele, mas o olhar austero continuava ali numa única pessoa e ainda o assustava mais do que a troika felina simetricamente disposta à sua frente, que se afastava lentamente.

 

E a sua mulher, ou ex-mulher, ou maior inimiga, a julgar pelas suas novas vontades, ressuscitava numa diversidade de sentimentos em que ela própria era apanhada desprevenida pelo que sentia, numa procissão de lágrimas que lhe pingavam num peito que era fortificação de um coração aos saltos. Uma loba sem Rómulo e Remo para amamentar.

 

Sem que nada o pudesse antecipar, enquanto as bestas arrastavam o tenro manjar, ela estendeu os braços como prolongamentos dos ombros e olhou o céu. De olhos fechados para não continuar a ser plateia da sua própria ruina, deixou-se cair na comodidade que o precipício quase sem fim fazia pressupor. Cair naquela água gelada, mesmo que lhe dando a morte como presente, era bem mais quente que o coração daquele homem, que viajava agora, dominado pelas ninfas da insanidade, feliz na companhia do estrangeiro.

 

 

 

 

Um agredecimento especial pela atenção, pelo desafio lançado e pela interesse manisfestado,

Johnny Almeida

Paulo Jorge Rocha

 

Publicado por Universo de Paralelos às 16:54
Link do post | COMENTAR | Favorito
1 comentário:
De golimix a 28 de Abril de 2013 às 19:20
Insanidade no seu limite....




Comentar post

!>Pesquisar neste blog

 

!>Junho 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


!>Arquivos