Domingo, 7 de Abril de 2013

Escrever a meias #2

 

Fui ao museu, já sei, devia ter ficado a ver a Casa dos Segredos, mas volta e meia dá-me para isto... Nunca percebi muito bem aquelas roupas que a Teresa Guilherme usava e, se é para ver coisas que não entendo, é preferível sair de casa do que ser engolida pelo sofá.

 

Pensava, erradamente, que ia apreciar pinturas, ver o que eu, e só eu, sinto sempre que olho para uma tela ou para uma escultura, mas tive a sorte de ter alguém por trás a explicar-me o que é que o pintor exprimia, o que significava a tela, o que queriam dizer os retorcidos da escultura marada, os salpicos de uma pintura, as cores sombrias, as cores vivas, as quentes, as frias e as mornas. Porque é que foi escolhido aquele material e não outro, porque é que pintou a paisagem em vez de uma mulher nua...

Uma espécie de tradutores de arte. Os tradutores mais importantes, na minha opinião. Porque ao vermos a escultura de um homem a cavalo, podemos pensar “Excelente! O artista conseguiu na perfeição retractar um homem a cavalo.” Uma salva de palmas à nossa inocência. Aquilo pode representar o pecado, a solidão, o drama dos escravos africanos, a revolução industrial ou um homem a cavalo a tentar imaginar uma mulher nua. E a parte gira é que pode muito bem ser tudo ao mesmo tempo. Podemos (posso) não entender nada daquilo, mas uma coisa é certa: arte é a codificação dos conceitos. (Sinto-me uma leiga importante quando acabo de dizer esta frase. Vou repeti-la porque me soou bem.) Arte é a codificação dos conc… (Pois, se calhar avançámos.)

 

Ok! Senti-me ainda mais ignorante do que lá entrei. Percebi que não entendo mesmo nada de espírito e alma de artistas. E, se calhar, nem o próprio artista entenderá muito bem a natureza do seu ser, mas se ouvir as explicações dos entendidos, chega lá.

 

Precisava de ajuda e, por isso, levei o Nico comigo. Este pobre canino era tolo o suficiente para se autodenominar como meu acompanhante e, naquele momento, não deixava as pessoas aproximarem-se demasiado enquanto apreciava as obras, além de me explicar o expressionismo ali pendurado, que se estendia desde o hall de entrada até à porta da saída (a mesma porta, por acaso).

 

O smell que ele irradiava não deixava os outros visitantes estarem perto o suficiente e, como tal, não viam as caretas – sinónimo de um profundo entendimento acerca das belas-artes - que fazia enquanto olhava para aquelas interpretações ali traçadas pelas circunstâncias da vida. Embora tenha de confessar que ver a Casa dos Segredos é muito mais produtivo no que concerne à criação de expressões faciais invulgares.

 

Numa entrevista que ouvi aqui há uns dias, David Fonseca confessava que escrevia uma letra que lhe vinha à cabeça e depois havia sempre alguém a dar interpretações para aquilo que ele escrevia que ele nem sequer imaginava!! E é precisamente isso que muitos deles pretendem: que lhes expliquem aquilo em que trabalharam, muitas vezes fazendo-lhe um desenho que, embora seja feito por quem tem pouca apetência para as artes, os faz perceber a quantidade de cocó que existe na cabeça dos outros.

 

O pobre Nico explicou-me que muitas vezes os autores optavam pela multidimensão de interpretações, porque se as obras servem para criar reacções, haver muitas possíveis enormiza-a. Há ainda os que tudo fazem para não deixarem espaço a uma interpretação possível. Como diz o próprio Fernando Pessoa “O objectivo da arte é não ser compreensível.” Um bocado ao encontro do que Stanley Kubrick disse sobre 2001: Odisseia no Espaço, “Se perceberem o que tentei fazer, então falhei completamente.”

 

Foi então que o Nico me explicou que o autor destas preciosidades as fazia com os pés, misturando os restos dos pastéis, deitados diariamente fora pelo gordo, depois do lanche da manhã. Nessa altura, reflecti, olhei para o pobre canino, retirei a mola do nariz e pedi-lhe desculpa por ter usado o seu mau cheiro como repelente de pessoas. Pelo menos foi o que eu quis perceber que dizia enquanto mexia a boca.

 

Estou em condições de revelar que Nico não era um cão, mas sim o guia que me dava explicações. Imaginava-o como um animal que fedia, guiado pela inveja daquele ser que possui tanta informação, e, desta forma, poder, por dentro, rir-me dele. O seu mau cheiro eram, na verdade, os esclarecimentos cheios de intelecto que dava, que afastavam quem não queria pensar. Mas fiquei feliz por naturalmente ter “tirado a mola do nariz” e apossar-me da humildade para ouvir aquele homem, velho e sábio, feito ancião de uniforme vincado.

 

Fiquei satisfeita por ter aprendido. O saber não ocupa lugar, mas eu fico contente por ter, em breves momentos, ocupado o meu lugar com saber. E vou para casa a rir daqueles bichinhos de dentes amarelos que ficaram a cultivar-se com o grande livro do conhecimento geral que é a Casa dos Segredos (ah, a que horas é que passa o resumo do dia?).

 

 

 

Um forte agradecimento à escritora e blogger (e talentosa) Golimix

Johnny Almeida

Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 17:40
Link do post | Favorito
De Kok a 8 de Abril de 2013 às 15:23
Chegado ao fim da leitura estou sem saber se devo continuar a visitar museus ou se devo decidir-me por nunca mais lá por os pés. (calçados, evidentemente).
Se devo interpretar uma pintura (por exemplo) pelo que a minha imaginação sugere, ou se devo orientar-me unicamente pela "opinião" da brochura acompanhante.
Ou nem isso, já que (inclusivamente) tudo o que o autor possa afirmar e explicar é susceptível de estar errado.
E depois? Qual a importância destas minhas divagações?
Nem a ideia do artista-autor, nem a minha opinião podem melhorar ou prejudicar a obra.
Está feita, feita está! Adiante!
As parcerias parecem-me bem. Sobretudo quando despertam o meu interesse e "agarram" a minha atenção!
Este foi o caso. Terá sido por influência do meu apreço pela Golimix? Admito que sim. Mas outra coisa não seria de esperar de quem tão bem escreve!

Beijos e abraços! E sorrisos!


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