Segunda-feira, 1 de Abril de 2013

Um ele e uma ela (parte II)

- Porque é que eu me ia tornar numa fotocópia daquele patife!

 

A pólvora que fervia na sua mão, arrefeceu. A pena era mais dura - para as duas partes - se este fosse castigado pela ausência do pilim.

 

- Para que é que ela quer a minha liberdade? Bem merecia que lhe tivesse roubado tudo!

 

Ambos pensavam agora no mesmo.

Assim fez dias antes, era simples. Roubava-lhe a casa em pezinhos de lã, mesmo depois de lhe ter trocado as voltas no seguro da casa com mãozinhas de ninja e ajuda do seu segurador. Seria perfeito, golpe duplo, vitória tripla. Ia acabar por vê-la a rondar aquelas bandas durante mais algum tempo. Magicou muitas vezes neste golpe, não pelo valor, mas pela adrenalina de conseguir o golpe perfeito.

 

Ela não era indefesa nem frágil, caso contrário o bom senso não o deixaria avançar. Ela, rica, sem parentes próximos, casa em zona resguardada, atraente, com sentido de humor... Não conseguia planeá-lo sem divagar... Aceitava estes "despiques" como uma competição saudável, uma disputa de egos silenciosa. Ambos sabiam que esta envolvência não seria saudável para qualquer pessoa. Mas eles não eram quaisquer uns.

 

Enquanto ele encarava a ocasião como uma oportunidade para guardar um pé-de-meia, a velhice chegaria mais tarde ou mais cedo. Ela preferia mentalizar-se que o deixara ir pelas razões certas, além disso já tinha defendido arguidos bem menos divertidos. Se ele voltasse a fazê-lo, talvez conseguisse ser mais determinada. Levava à risca o que lhe dissera um professor, nos tempos de faculdade, "It's all about the game”. Nunca se esqueçam meus caros", quando tivessem de fazer algo com o qual não estivessem de acordo. Era, para os dois, um jogo doce, com jogadas açucaradas, que se poderiam tornar em algo gigante.

 

Não fosse a diversão, haveria ainda a benesse, a esperança que o silêncio fosse apreciado, apesar de andarem sempre na sombra.

À luz do dia e aos olhos dos mais distraídos, o fato e a gravata disfarçavam tudo, ou quase tudo; a atitude desvia as atenções dos mais distraídos; a sorte tratava do resto: pô-los no caminho um do outro. Assim havia vivido desde tenra idade, quando vivera entre as seis e as treze primaveras no Rio de Janeiro, fora lá que aprendera o "gingar" fácil à vista de todos.

 

Ela, lisboeta da reboleira onde aprendera como não fazer muita coisa, a maior parte das coisas. Era uma jovem que apreciava a solidão - só conhecia os vizinhos pelas fotografias impressas nos jornais -, só assim manterá a esperança que a levara a sair daquele buraco sem esperança, culpa de quem ali os colocou como de quem ali vive; assim se explicava a esperança que mantera até agora, já adulta, que a fazia confiar desconfiando. Muitas vezes tentava perceber se aquela sedução disfarçada resultaria numa aproximação íntima o suficiente para poderem chamar "alguma coisa" áquilo.

 

São difíceis os dois - como somos cada um de nós - porque querem aproveitar aquele momento mas porque também não querem perder o luxo que conquistaram, um com a lábia, outro com o medo. No fundo desfrutavam daquele momento disputando-o para definir quem cederia mais caso surgisse aquela eventualidade que desejavam.

Era um jogo do "aponta-o-dedo" perigoso, senão algo mais, que acabara por se tornar divertido de mais para se largar; ossos duros de roer que não queriam largar o osso. São apenas profissionais que procuram cumprir aquilo para o qual nasceram: isto não é sobre nós, é sobre mim.

 

Guardaram o segredo, porque o medo de perderem o que são deixou-os perderem o que poderiam ser.

 

Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 15:03
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