Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013

O que a maré me dá... (parte II)

- Alfredo, como se sente quando é chamado de papa-concursos?


- Nem bem nem mal, decidiram assim, assim está, Raquel. Ao contrário do que se esperava, fiquei conhecido por dizer parvoíces em concursos e não por tê-los vencido....


- Depois de ter vencido os mais variados concursos de cultura geral portugueses dos últimos dez anos, quer agora seguir carreira em talk shows?


- Não é uma intenção minha, até porque isto não é carreira nenhuma, mas o dinheiro que me pagam para estar aqui sentado consigo é faz-me milagres. Ainda na semana passada estive no "Cooltura" e o Diogo Armando fez-me a mesma pergunta. Se me perguntasse com que detergente lavo a louça toda esta entrevista teria mais interesse. - concluí bruscamente.


- Mudando de assunto, como surgiu este percurso... pouco comum?


- Uma vez inscrevi o meu vizinho, poucos anos mais velho do que eu, num concurso para a canalha. Ele apanhou tamanha vergonha que decidiu pagar-me na mesma moeda. E assim foi, comecei no programa do Rui Pintassilgo, venci e o meu primo tem-me castigado durante a última década...


- Se me permite a ousadia, eu tenho um amigo que é conhecido por "Papa-chiclas" e olhe que não era por comer muitas chicletes. Ele comprava-as para tirar o cromo e dava-as todas. - dando uma gargalhada vaidosa. - Chega a "papar" outras coisas? - surgindo agora um sorriso malicioso.


- Pois, estou a ver onde quer chegar. Que venci alguns concursos é facto comprovado, qualquer uma das televisões nacionais o confirmaria. - continuei num tom profissional. - Sim, tenho o habito de comer aqui e ali. No entanto, já levei mais chapadas do que abraços. - já num acto brejeiro que não combinava com a minha personagem.


- Como lhe andam sempre atribuir relacionamentos, apenas queria saber qual a sua reação em relação ao mediatismo que é imposto a uma estrela. Já "materializou" algum daqueles que lhe foram impingidos? - perguntou com um interesse de tal forma genuíno que me espantou.


- Não tenho o mínimo interesse. Eles que me casem, se assim entenderem. Só lhe digo que, na realidade, as respostas negativas acabam por nos fazer apreciar muito mais quando a resposta é positiva. - Disse incisivamente para acabar com este questionário público.


- Que projectos para o futuro? - Perguntou, recomposta, depois de ter visto a minha expressão de aborrecimento.


- De momento não tenho nada em vista, estou à espera que o meu vizinho se chateie... - respondi sem vergonha daquilo que proferia.  


A entrevista continuou. A jornalista pensou duas vezes se deveria perguntar-me sobre as merdas que faço diariamente, mas depois percebeu que eu era uma pessoa desinteressante, normal, como ela. Decidiu então seguir a linha do guião que havia preparado antecipadamente. Também tinha medo, como eu...               

Aliviado, saí daquele estúdio mais colorido e  dirigi-me uma última vez à secretária para perceber se poderia ter acesso a uma gravação integral da entrevista antes de ser transmitida. Queria apenas perceber se o homem fabricado na entrevista era alguém interessante, era um exercício engraçado que gostava de fazer.


- Ela levantou-se e deu-me um cartão com um contacto escrito à pressa. Tome, aqui tem. - disse-me um pouco tímida.


Hum... Que corpo! - pensei. - Ligo para este número e peço uma cópia da entrevista?


- Não. - disse calmamente. - Para isso tem de ir até ao fundo do corredor e pedir ao Rogério. É na porta 38. Depois das seis, pode ligar para esse número. E continuou o seu trabalho tranquilamente. Virei costas e segui, quando a jovem me indica que não estava seguir o caminho certo para obter o que tinha vindo pedir.


- Talvez passe cá outro dia, tenho a cabeça ocupada com coisas mais importantes...


Durante a manhã, aconteceu alguma coisa num qualquer momento, que me passou ao lado. Mas, naquele preciso momento, a espera soube-me a algo tão doce, que não consigo descrever em palavras. Elas servir-me-ão para descrever algo que até aqui me  parecia impossível.


Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 16:48
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2 comentários:
De Blogadinha a 14 de Janeiro de 2013 às 18:22
A inteligência de proferir discursos sem uma única palavra - momentos finais como esse são ouro.

E a entrevista digna da Tvi. :P



De jabeiteslp a 15 de Janeiro de 2013 às 21:21

Boa sorte


estes anacrónicos não sabem
que um minuto não faz uma vida...de trabalho


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