Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013

Daniel, o pensador

Vou contar-vos uma história real sobre um homem que nunca existiu.

 

Não sabia estrelar um ovo, nem usar um corta-unhas, mas a nível de pensar, estava ali um cinturão negro. Perante uma situação onde a prática lhe era exigida, transcendia numa lepra mental que lhe fazia cair os braços, as pernas e a bacia desencaixava-se em ziguezague. Tinha o mesmo desempenho de uma girafa bebé bêbada a operar o coração de um velho no limbo da vida. Em contraponto, era um senhor quando o tema se ficava pela teoria. Era um relógio suíço feito pelas mãos de uma fada. E pensava que nem um Lincoln, um Magno, um Dussel. Pensava absolutamente sobre tudo. Sobre a vida na Terra, a vida para além da Terra, a terra para além da vida, a transcomplexidade biónica da mutação e o preço exagerado das tostas mistas, quando aquilo não é mais do que pão com queijo e fiambre. Pensava sentado, pensava de cócoras, pensava no banho, pensava às refeições, no meio das refeições, antes de dormir e enquanto dormia.

Na sua mais recente ligação de raciocínios concordantes, chegou à conclusão de que o homem descendia do flamingo e a mulher de um haragán com cabo de madeira.

Pensava como não passar à prática para os outros não pensarem que só sabia pensar. Daniel, o pensador. Nunca “o praticante”.

 

E tudo muda, como a todos parece lógico, no dia em que decidiu agir. Comprou cana, linha e uma mão-cheia de iscas. Meia hora passada a ponderar na melhor maneira de lançar o anzol até ganhar coragem de o atirar à água. Encostou-se a uma árvore a pensar numa lista de coisas para pensar enquanto a linha não esticava. O silêncio, que até então era imperativo, foi interrompido por um homem barulhento que parecia dizer tudo o que lhe vinha à cabeça. Lembra-se perfeitamente das frases que o tiraram do relaxamento “Está aquela espécie de chuva miudinha. Aquela… como é que lhe chamam? Molha-tolos… Que nome mais idiota para chamar à chuva… Quem é que dá nomes às chuvas? Quem é que pensa nestas coisas? Pensar é para quem não tem mais nada para fazer. Sabes do que estou a falar? Vou ligar à Mafalda que ela deixou uma máquina de roupa a secar. Queres Pringles?”

 

Tinha todas as razões e mais quatro para odiar aquele homem, até que… pensou. Não podia odiar alguém com tamanha alegria de viver, alguém que agia, mesmo antes de decidir agir.

“O intérprete”. Actor sem guião, rei do improviso com uma aversão a pensamentos longos, dos que vão além da escolha dos cereais do pequeno-almoço. Daniel amava-o, porque era a sua conclusão, o seu “ponto final, parágrafo”. Eram letra e partitura, eram cerveja e tremoço, papel e caneta. Não eram, mas o homem rotulado de “o pensador” na Universidade onde dava aulas sentia que assim devia ser.

 

A pesca foi exuberante. Pescaram a jante de um Ford Fiesta. Riram desavergonhadamente. Passaram tanto tempo a rir que quando acabaram, julgaram que tinham saltado três refeições e perdido a primeira comunhão da filha. E nenhum dos dois tinha filha… para termos a noção de todo o tempo que aqueles dois homens – princípio e boa terminação – passaram a divertir-se. E que bem que o fizeram.

 

Deram-se tão bem que fez de Daniel convidado de honra, com orquestra e passadeira vermelha imaginárias, num jantar normalíssimo, provavelmente pizza ou lasanha de microondas. Ainda se tentou impor ao menu quando disse “Podíamos escolher outra coisa para comer… Comer… Escolher… Outra coisa… Está é a tua mulher? Pum Pum! Pum Pum! WOOOooow! É muito bo… simpatia.” Esta frase já para si, em pensamento “Muito simpática de corpo. Chupava-lhe aquela simpatia toda.” Era, de facto, um mulherão. É cem vezes melhor do que a melhor mulher que conseguirem imaginar neste momento. Era tão bonita que ponderou pedir-lhe uma foto tipo passe para fazer papel de parede para o quarto.

Tinhas as mãos borratadas a verde e a amarelo, fruto daquela que deveria ser a sua grande obra de arte, uma pintura a óleo chamada “A vagina pensativa”.

 

Daniel sentiu aquela vontade a subir-lhe dos pés, a apoderar-se do estômago, já a ameaçar encher-lhe os pulmões. Sabia que quando chegasse à cabeça, iria pegar na mão dela. Correriam porta fora aos berros de felicidade, aos saltos, enquanto se despiam, enquanto telefonavam ao prior para marcar casamento, enquanto rebolavam nus nas míticas cearas de trigo ou aveia ou centeio… tanto faz, eles queriam era rebolar nus… e berrar e saltar e provar que estavam vivos, que os seus corações voavam num Porsche amarelo à velocidade do som. Seriam a sensação de acordar com a notícia de que se é bilionário, seriam um avião a lançar algodão-doce por cima de um país só de crianças... Gritariam em todas as varandas do mundo “Souuuuuu tão feliiiiiiiiiiiiiz”. Finalmente, chegou à cabeça. Daniel, sentou-se calmamente a pensar, seguindo cautelosamente as instruções d’O Pensador, de Michelangelo. E o que lhe veio à cabeça? As seguintes e, segundo ele, pertinentes questões… “Valeria a pena trazer a infelicidade ao meu novo companheiro? Valeria a pena iludir aquela bela mulher com coisas fantásticas quando a única coisa que sei fazer é pensar? Valeria a pena estar a imaginar coisas quando, provavelmente, nada daquilo passaria da teoria? Valeria a pena partilhar lasanha de microondas com a mulher da nossa vida, quando a refeição é má e a mulher é da vida de outro?” Levantou-se e fez soar os seus passos até à porta, num tom penoso e a compor a melodia soturna da despedida, a marcha do herói destinado a ser solitário. Quebrou aquele momento frágil, forte e inesquecível, dirigindo-se à bela mulher com toda a certeza de que ela habitaria os seus pensamentos para além da eternidade. “Mafalda, nós sempre teremos Paris.”

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 16:47
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1 comentário:
De sofiazinha a 26 de Janeiro de 2013 às 03:01
muito interessante esta história,muito bem,gostei de ler.


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