Terça-feira, 11 de Dezembro de 2012

Enlouquecer

Ficar louco é levantar-me às cinco da manhã para ir fazer cocó à Argentina. É tocar a todas as campainhas dos vizinhos e não fugir. Antes dizer “Arranja-me um guardanapo para limpar as lágrimas de sangue que me escorrem da testa. Vamos jogar à sueca?” É chorar todos os dias depois da morte de Djonatã, o nosso M&M de estimação. É pensar que estamos a fazer windsurf num mar de groselha, quando estamos só a cortar as unhas.
Virar louco tem destas coisas. Faz-se tudo de uma forma confusa e desapropriada. Pessoas, primeiro, baralhadas, depois estranhas e, por último, desajustadas. É a doce metamorfose da loucura.

 

Uma história curta. Vasco está a comer sopa com o auxílio de uma chave-de-porcas, dispensando completamente a utilidade da colher. Faz um olhar panorâmico sobre todos os que o rodeiam, em tom sério, como que a dizer “O que foi? Vocês é que estão todos errados.” As pessoas que o amam, meteram-no numa casinha com enfermeiras que o fazem engolir comprimidos ao pequeno-almoço e lhe vestem uma camisa que aperta nas costas.
Já não se pode ter uma versão própria e criativa da realidade? E se eu quiser dormir no armário das bolachas? Porque é que temos de ver as coisas tal como toda a gente que trabalha das nove às cinco e vai almoçar ao domingo a casa dos pais? E se me apetecer falar com alguém que vive há seiscentos anos num porta-moedas e que adora bollycaos?

 

Ser louco é exactamente isso. É beber água de um aquário e tentar fazer um filho a um aquecedor a gás. Enlouquecer é encher o frigorífico com comida e depois comer o frigorífico. É ir à praia com um fato de astronauta ou ir à pesca do caranguejo e usar a própria pila. Deve doer muito, mas, sem dúvida, é coisa de louco.

Viver sob o domínio da loucura é passar dois terços do dia em pé, com os pés dentro de uma saladeira ainda com restos de alface e rúcula, numa sala em tons de sépia, com o tecto a pingar vinagre e a usar uma roupa suja com cheiro a pinguins, enquanto aguardamos pela chegada de um comboio feito de mármore que nos levará para Depeche Mode. Tenho a certeza que isto é enlouquecer e nunca estudei o assunto com medo de virar caso de estudo.

 

Desafiar um louco é um desafio para quem desafia. “Olha louco, não és capaz de roubar o chapéu ao polícia e fugir.” E quando olhamos para o lado, está ele, o homem da insanidade mental, a fazer malabarismos com o chapéu, o cassetete e as calças do agente da autoridade, enquanto lhe foge com a mota que conduz com uma perna. Faz até parecer que tem poderes. E não será a loucura um poder para se poder fazer tudo?

 

Sucintamente, ser doido é pensar “Vou conversar com pessoas que não existem, culpar os meus pais por não haver internet wireless em Saturno e fazer projecções do passado no presente” e viver assim ate morrer com anti-psicóticos.

 

A morte e a loucura hão-de chegar. Normalmente, há uma competição entre elas para ver qual chega primeiro. Até ela chegar, vamos fazendo uma árvore de Natal no Inverno, limpezas na Primavera e vemos mamas em todas as estações. Era exactamente aqui que eu queria chegar. Se algum dia começar a comer os próprios sapatos, proporcionem-me este momento: Enfileirem-me, lado a lado, 15 mulheres, nuas da cintura para cima. Tocarei xilofone usando as mamas delas. Rir-se-ão de mim? Não sei, mas a loucura é desculpa para tudo e vou aproveitar essa condição.

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 20:03
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8 comentários:
De Existe um Olhar a 11 de Dezembro de 2012 às 20:12
Isto é o que eu apelido de ser saudavelmente louco, nem mais nem menos, ou tudo ou nada, o exagero das acções pressupõe a própria loucura.
Não há meio termo e imaginei-me a cometer algumas delas, não porque me ache louca, mas porque por vezes sinto que sou o que não sou.

Manu


De Alice Alfazema a 11 de Dezembro de 2012 às 22:37
E, fiquei a pensar, que espécie de melodia sairia de um xilofone desses.


De golimix a 12 de Dezembro de 2012 às 17:27
Ser louco é não saber aproveitar a sua própria loucura!
Hummm... ando poética!

Há anos que procuro a tal linha que separa a loucura da normalidade mas ainda não a encontrei!! Quando a vir avisa-me, ok?

Adorei o post meio louco

E estou a imaginar a música que esse xilofone daria.


De Naçao Valente a 14 de Dezembro de 2012 às 16:09
De tonto e de louco todos temos um pouco, talvez mais do primeiro. É uma questâo de gradaçâo. Mas essa de fazer um xilofone de mamas é de loucos. Na minha loucura preferia dar-he outra utilizaçâo. Porra, já me fartei de escrever e aindam faltam 4054 caracteres. Esta caixa está a dar cabo da minha sanidade...3992...


De Teresa Isabel Silva a 14 de Dezembro de 2012 às 16:51
Meu Deus, depois de ler este texto eu própria fiquei a achar que estou a ficar louca!!! Será que é assim que se começa?

Bjxxx


De daisy_daisy a 15 de Dezembro de 2012 às 10:59
As pessoas costumam dizer-me "tu não existes!!!"... Será? Estarão elas loucas? Ou será a minha loucura a dar nas vistas, e é uma forma subtil de como quem não quer a coisa, alertarem-me para o fato da loucura se estar a apoderar de mim?hummm....

...quem não sabe viver com loucura, nunca saberá o que é ser feliz!!!!

bom fim de semana...


De Blogadinha a 17 de Dezembro de 2012 às 17:07
Boa desconstrução: de texto e sobre a realidade. Um senão em jeito de opinião talvez: a loucura assiste-nos logo à nascença.

Boa semana!


De Ainanas a 4 de Janeiro de 2013 às 18:23
Um louco não faz cocó... vai cagar à Argentina.


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