Terça-feira, 23 de Outubro de 2012

Quase já chega

Enquanto coçava as minhas barbas branqueadas pelas minhas 74 primaveras, recordava com emoção os velhos tempos "faroesteanos". Sorria até. Diria mais, ria quase sem parar, só abrandava mesmo para pensar que nem sequer conseguia comportar-me e parar de dar gargalhadas. A Margarida era completamente imbatível quando me fazia a pedicure. As lágrimas vêm-me aos olhos... Ela era definitivamente a melhor.

O meu neto chega-lhe a acetona, a irmã mais nova o corta-peles. Consegui ver a sua expressão de alegria depois de perceberem que havia finalmente alguém naquele barracão capaz de me fazer calar. O mais velho a fazer os cálculos - quer criar um foguetão que leve a família Passos Coelho para outra galáxia - e a mais nova a cuspir labaredas pela boca, enquanto afia os utensílios da Sheila, chamo-lhe assim porque me apetece e porque não vivia apenas dos calos e das unhas.

 

Enquanto esta harmoniosa cena se passava o quadro da luz soltava faíscas que se viam a dois metros - distância a que eu me encontrava, a banheira não cabia em mais lugar nenhum. O entulho coloria o chão da casa e não permitiu outro lugar mais apropriado para arrumar a dorna onde o meu avô fazia o vinho doce. Saboroso. Saboroso era todo aquele momento, os meus pés já não pareciam uma colónia de fungos. Além disso, a Brigitte passava a padecer da mesma doença dermatológica que eu e encontrava-se agora mais perto do meu nariz.

E falava, contava, tagarelava aos meus netos como, certa vez, não "comi" uma das mais belas estrangeiras que haviam passado pela Amadora. Internacional, hein! - berrava vigorosamente. Uma brasa! - insistia. O pequeno fazia aquela cara de pasmo, enquanto enviava o e-mail para a NASA (com o planeamento da aeronave) e berrava com a irmã. Apenas porque estava a assar uma resma de gafanhotos para o nosso almoço.

 

Lembrei-me também daquela altura em que vivia com quase cem euros, uma moeda atraente - tanto que a destruíram - que houvera há anos atrás. Tão valiosa que as pessoas ainda pagavam para a receber. Uma vez Ritita, quase fui assaltado! Enfim, paródias que já não se vêm actualmente! - prosseguia. Recordo-me como se fosse hoje, o rapaz tinha um ar envergonhado e sujo e ameaçador: ó meu dá cá uma moeda. Ah? Eu não tenho moedas - disse, receoso. - Ele, avançou em minha direcção e mostrou-me os dentes. "Queres ficar como estes que aqui tenho por causa de uma moeda?"

 

Quando dei por ela, já lhe tinha passado uma nota p'rá mão! Uma aventura pá! A Isabel devia incluí-las na sua obra! - exigi. Recordar estes momentos faz-me um homem. Um daqueles que deve em todo o lado, mas não teme. Se o receasse já tinha mandado a Mary instalar um quadro eléctrico em casa. Faz-me também emergir à tona do Long John que sobrava no fundo do copo.

 

Confesso. Na verdade, tudo isto não passa de um sonho, meus pequenos... O sonho de qualquer um, aliás! "Janette, pára com isso. Não vês que eles estão a olhar." - pedi com um sorriso malandro. Oh, o que eu sonhei com uma vida destas. Cheia de quase - aventura. A fazer 29 por uma linha. Isto aconteceu, sim. Mas com o meu amigo Zé Maria... Que vida de luxo, tinha meia padaria, ia-se desenrascando e vivia... Como quase todos os portugueses...

 

Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 15:21
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4 comentários:
De jabeiteslp a 23 de Outubro de 2012 às 17:09
uma feliz tarde
que de recordações, é viver também...e tê-las

é porque foram vividas...

abraço dos calhaus frios da Covilhã


De luadoceu a 24 de Outubro de 2012 às 12:34
recordar é viver, é sinal que se viveu algo que apreciamos ou ate não,faz parte da vida, de nos
continuação,pelo menos de boas recordações
um abraço e continuação de boa semana


De golimix a 25 de Outubro de 2012 às 21:47
Momentos... a vida é plena deles, há que saber não deixá-los fugir e vivê-los com simplicidade.

Quanto ao desenrrascanço. Isso é a nosso fado ;)


De golimix a 25 de Outubro de 2012 às 21:47
Momentos... a vida é plena deles, há que saber não deixá-los fugir e vivê-los com simplicidade.

Quanto ao desenrrascanço. Isso é o nosso fado ;)


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