Sábado, 15 de Março de 2014

Ponham um disco a tocar

Eu sei que sucedem coisas em sítios.

Guerras que acontecem. Um país que não está bem a julgar pela tv. 

Mas eu não quero prestar atenção a essas coisas e fico só a ouvir Daniel Johnston com um fantasma amigo.

 

Eu sei que o mundo é enorme e que há galáxias e mais galáxias e muito mais para se descobrir. 

Mas eu não me quero cansar a pensar sobre isso e fico aqui, preto em espiral, a ouvir músicas das quais conheço a letra na companhia de tudo o que dói. 

 

Eu sei que tenho amigos e família que gosta de mim. Custar-lhes-ia saber que adeus. 

Mas evito pensar nisso e tento dormir. Algo que só acontecerá daqui a algumas horas. Levanto me e ouço uma música qualquer na companhia de um espaço vazio. 

 

Espaços vazios estão sempre preparados para nos acolher. Basta procurá-los e eles acolhem-nos. Fazem-nos companhia quando achamos que somos só nós. 

 

Para não estar só, ouço um blues igual ao que ouvi naquele dia que imaginei perfeito. Descansava numa rede, numa tarde de calor, numa herdade perto de Chicago. Levantava-me para buscar uma cerveja cor de mijo, mas que sabia bem. Um blues tocado em harmónica. 

 

Sei que há imensas coisas no mundo. Escravatura financeira e roulottes de cachorros. Mas fico me por aqui, neste hectare cúbico sem janelas, de paredes pretas, a ouvir um Cântico Negro as vezes que me apetecer, sem ter que calcar um mundo onde ser empreendedor é vender sabonetes em sacos de serapilheira e onde querem os melhores mas só se forem primos de não sei quem. 

 

Sei que isto é uma prosa das mais bostas que já escrevi. Vocês são espertos e também sabem isso. Mas também são espertos para evitar a pergunta "tudo bem?" quando já sabem a resposta.

 

Minimizem a flagelação de um cérebro exausto de se reinventar e ponham um disco a tocar.

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 14:19
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2 comentários:
De golimix a 18 de Março de 2014 às 19:31
Cada um tem a música que o sabe acolher e espaços vazios em que nos sentimos bem e em paz.


De Anónimo a 23 de Abril de 2014 às 14:25
Para quê minimizar a flagelação de um cérebro exausto quando é o coração, em negros pedaços,que tem que ser reinventado?
Invés de um espaço vazio cheio de sentimentos feitos de palmadinhas nas costas e olhares coitadinhos sobre si mesmo...invés de paredes negras e correntes sufocantes...invés de um disco, um grito!



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