Domingo, 29 de Janeiro de 2012

A Galinha da Vizinha é Pior que a Minha

Se a sociedade está cada vez mais individualizada e, apesar de ultimamente se ter procurado em contrariar essa tendência, vemos nas grandes cidades – e, actualmente, até nos povoações mais pequenas – que as pessoas moram num prédio onde nem sequer conhecem os vizinhos. Aqui faço mea culpa porque o mesmo sucede comigo. A tendência é esta. Pessoalmente, incomoda-me viver num meio mais pequeno, porque aí os mexericos são o pequeno-almoço dos mais esfomeados. Daqueles que têm fome de ocorrências que mexam com o seu quotidiano, sobre o qual possam cochichar, ou comentar para não parecer tão mal, não vá os velhinhos – e os novos também – lerem este misero texto opinativo.
Para estas pessoas, a quebra da rotina e a melhor forma de “aliviar a cabeça” é o sair de casa e ir conversar com o vizinho, mas conversar sobre o quê? Agora até há uma linha de apoio para a qual se pode ligar para desabafar. Mais valia vir até à varanda, olhar para a vizinha, perguntar-lhe se vai fazer arroz de cabidela pó almoço e depois encostar o telefone ao ouvido e falar com a dona Lúcia. Ela está lá para isso: ouvir desabafos. Já imaginaram se, a título de exemplo, fosse a Júlia Pinheiro – ela que me perdoe, mas era ela que perguntava sempre se o almoço era arroz de cabidela (há já alguns anitos atrás) – a ligar para esse número? Era a imagem perfeita! Tratar-se-ia, antão, do “telefonema da má língua”.
Bem, isto daria pano para mangas, mais uma expressão corriqueira sobre a qual não vou falar – já me apercebi que no fundo eu sou uma velha que quer falar mal dos vizinhos com os vizinhos -, porque o que me levou a falar de tal tema tem a ver com o facto de, mais do que uma vez, serem os vizinhos cuscos a salvarem a pele daquele que já não é visto há muito tempo. Todos nós já ouvimos ou vimos nos jornais, passe a redundância, que a vizinha deu o alerta – porque já não tinha do que falar e então lembrou-se do súbito desaparecimento daquele que mora ao seu lado. Pois, mas a verdade é que isto acontece mesmo e, normalmente, aos mais velhos. Muitas vezes nem os próprios filhos – que também dizem mal do pai – se lembram de ver como anda aquele que anos antes cuidou dela com todo o orgulho.
Isto são apenas observações minhas, talvez delirantes, mas acho que não sou o único. Se por acaso conhecerem uma música chamada a “História do Zé Passarinho”, onde “o estranho se levanta (…), mete-se com a Rosa Limões”… Talvez ela nem ficasse ofendida, mas antes da abastada rapariga – vendia limões! - dizer o que quer que fosse, reza a música “o povo ficou sentido”.
O povo português é assim mesmo. Gosta de saber e tem opinião para tudo. Embora não goste de ver as vizinhas “fazerem renda” renda juntas, não digo para mudarem o que são. Apenas espero que a coscuvilhice não seja um aconchego para a alma daqueles que nunca fizeram nada de valor e usem o desacerto dos outros para se valorizarem.

 

Paulo Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 13:50
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