Quinta-feira, 31 de Maio de 2012

Pesadelos cor-de-rosa

O pijama com que durmo, muitas vezes, tenho a sensação de não ser meu. Parece que quando me meto entre os lençóis estou a dar passos longos e assertivos em direcção ao fundo de uma caverna escura e profunda. Visto aquele pijama horrível apenas quando o cesto da roupa já engoliu todos os outros. Aqueles quadrados estridentes apertam-me o pescoço enquanto o visto, prendendo-me todos os movimentos quando vestido. Parece que estou a vestir um colete-de-forças, que me prende, que me aprisiona na frente do medo… de uma noite mal dormida.

Parece que me estou a deitar numa morgue sempre que ele me acompanha, sinto-me com medo do que quer que possa vir, acho-me num corredor que me deve levar a algum lado, aliás, que me leva a algum lado. Descobrir? Não, teria de seguir em frente para sabê-lo. Além disso, as luzes vão falhando por cima da minha cabeça. Será que não se desfarão em estilhaços por cima da minha própria cabeça quando avançar, um pouquinho menos corrompido pelo receio que se transformou em um bocadinho de conformismo, já que as minhas opções são reduzidas: há uma única porta ao fundo.

 

Para ser menos doloroso, imagino-me então a ir em direcção a uma sala de execução, onde sei que me vou magoar muito, onde provavelmente me cortarão as pontas dos dedos, me deixarão em muito mau estado, para mais tarde calarem os meus gritos com uma descarga eléctrica. Um pequeno alívio depois da amargura. Mas qual amargura? A vida. O pesadelo? Ou o Sonho? A vida não é, de certeza. Pelo menos não a vida vida, de que todos falam, mas sim outra, aquela que raras vezes é falada e quando o é, discutimos dela com escárnio ou gozo.

Todos a imaginam, aqueles que não a alcançam troçam. Tanto que acabam por desfazer o sonho e, consequentemente, a sua vida. Aquele pesadelo, ou sonho, que todos têm, que ninguém ousa desafiar. Preferimos imaginá-lo entre folhas de papel coloridas, às quais só os mais pequenos dão importância. Ai este saudosismo de quando era criança é mordaz! Mas só se eu quiser, penso eu de seguida. Tudo isto enquanto o pesadelo se desenrola.

 

Perde-se a lógica toda: o sonho. Que me faz suportar a vida. Afinal, se a noite não é agradável, como é que me conseguirei pousar a cabeça na fronha? Talvez, porque quando acordar me vou sentir aliviado, aliviado por viver de uma forma agradável, aliviado por ter de ir passar água gelada na cara (e custa tanto pela manhã!), aliviado por ir para as aulas (e custa tanto a toda a hora!), triste por não ser mais, triste por não chegar onde o meu amigo diz que posso. Alcides - diz-me ele - levanta-te e faz o que tens de fazer. Num sorriso comedido, digo que sim ao sonho que me acompanha.

Lá me arrasto até junto do lavatório e passo água na cara, fria, fria. Mas não tão gelado como aquele corredor, luzes barulhentas, que me cegavam, mas que me permitiam vê-la sorridente quando as portas balançam com a aragem que por ali corria. Unicamente nos contos de fadas, não me esqueci. Talvez seja medo. É mesmo medo. Talvez seja pena de mim próprio. É mesmo. Talvez seja falta de coragem. Agora que reparo, digo falta de coragem em vez de cobardia. Não, afinal, é mesmo cobardia.

Acho que vou atravessar este corredor temeroso, estranho, frio e ver o que vai dar. Talvez compre um pijama novo agora com risco(s) em vez de quadrados. Vesti-lo-ei impávido e sereno.

 

Entrei na sala, ela não estava lá. Deito-me na cama. Será que vou ter insónias? Não Alcides, como diz sempre o meu amigo. Mas também não estão lá os mecanismos de tortura. É só uma sala vazia e triste, gasta, bem melhor do que imaginava. Penso que amanhã suspirarei por estar vivo, como em todos os outros dias da minha vida. Ela não está cá, mas estou eu. Só desta forma lhe poderei “dar-nos” (a minha alegria é a dela) alegria.

 

Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 19:21
Link do post | COMENTAR | Favorito

!>Pesquisar neste blog

 

!>Junho 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


!>Arquivos

!>Visitas