Segunda-feira, 30 de Abril de 2012

Toda a gente tem dias maus! (ou... Você é fogo, meu bem!)

No outro dia acordei e cheirava muito a queimado. Vou à cozinha para ver se tinha desligado os bicos do fogão ou se tinha deixado o ferro de engomar ligado, passo pelo espelho do corredor e vejo-me a arder. Eu eu “Ui! Não pode…” Mas estava toda em chamas, parecia uma fogueira em noite de Natal. E eu pensei “Tenho que ir ao hospital, porque estas pequenas coisas podem agravar e surgir um problema maior.” Mas depois fui só a casa da vizinha que ela é curandeira e percebe de mesinhas e rezas e já fez uma amarração, por questões de amor, a uma cunhada minha.

 

Só não tomei banho para não apagar o fogo. Se não, o que ia eu fazer a casa da vizinha? Nada. Mas que fique bem claro que eu não gosto de andar a cheirar mal. E eu não gosto de chatear as pessoas. Quando preciso de salsa, prefiro caminhar mais um bocado e ir comprar, que andar a pedir a este e àquele, como muitos fazem. Cheguei lá e diz-me ela “Ó Alzira, tu estás a arder.” Disse-lhe “Eu estou, mas se o assunto te aborrecer, podemos falar sobre a novela.” E o que é que aquela víbora queria? Filmar-me e ganhar dinheiro com as filmagens. Disse-lhe logo “Ó Norberta, eu nem ligo nada a ser famosa. O máximo que eu ganhei foi um saca-rolhas numa daquelas palestras para vender colchões.” Eu sei bem como é a Norberta. Uma vez emprestei-lhe vinte euros e fiquei a arder, nunca mais os vi. Estava ali com conversa fiada e eu a arder por todos os lados. Aborreceu-me. Vim para casa, pus um tacho ao colo e comecei a fazer o almoço. Estava entretida a guisar um frango, receita da minha avó, quando acabaram-se-me as ervilhas. Visto um casaco e vou ao Lidl. Até tenho pena. Era um casaco novo que comprei pelos saldos, ardeu todo. Isto assim é queimar dinheiro, pensei eu. Vou a entrar e o porteiro faz-me sinalética para recuar. E, de facto, tinha dois sinais na porta. Proibida a entrada a animais e a pessoas a arder. Fiquei arreliada, mas sempre cumpri a lei. Não ia feita tonta entrar por lá dentro.

 

Vim para casa e quem é que chega? É o meu Armindo que vem do trabalho. Ficou furioso. Diz-me ele “Fogo! Estive toda a manhã a fazer moldes e tu só sabes andar a arder. Não há comer na mesa, nem uma sopa. Vou fumar um cigarro. Chega-te aqui que eu deixei o isqueiro nas outras calças.” As horas a passar e eu com uma máquina de roupa para estender. Fui um bocado para o sol para ver se passava. Deitei-me numa cadeira e acabei por adormecer. Acordei a cheirar a piri-piri que era uma coisa impossível. Os filhos dos vizinhos tinham-me besuntado da cabeça aos pés, porque pensavam que eu era um churrasco. Fiquei nas tintas e gritei aos moços “Seus caralhos, vão pôr disso na cona da vossa mãe, para ver se vão lá menos vezes.”

 

Estava farta de andar para trás e para a frente como se fosse uma vaca de fogo. Disse para mim “Não! Eu vou ao hospital.” Porque eu tenho uma prima minha que um bicho lhe mordeu e se ela demorava mais quinze minutos a chegar ao hospital, tinha falecido. Assim, só apanhou uma gripe, porque era Inverno, estava neve e ela foi a correr descalça. Fui pelo caminho mais perto que era o do parque. Aquilo começa tudo a arder devido ao meu estado e acusam-me de fogo posto. Levam-me para a cadeia. Um polícia brasileiro vira-se para mim e diz “Nossa! Você é fogo.” E eu “Se fosses gozar o caralho.” Deixaram-me sair depois de lhes secar as fardas e aquecer a sala. Foi engraçado. Disseram-me que nem no Kosovo, onde estiveram em missão de paz, as pessoas ardiam tão bem. Levei como um elogio e fiquei vaidosa.

 

A caminho de casa, passei por um acampamento cigano. E eles sempre a olhar para mim. Queriam levar-me para um circo de aberrações. E eu disse-lhes “Por acaso… Vou já para o circo passear, porque eu tenho a vossa vida. Quem é que me esfrega o chão? Quem é que leva os equipamentos da canalha para irem para o futebol?” E o cigano “Tu és arrogante. Eu, por ti, não punha as minhas mãos no fogo.” Vim embora com medo que me pusessem num Ford Transit azul e me levassem para a Roménia.

 

Cheguei a casa já depois de jantar. E eu toda a arder. Parecia uma daquelas crises de soluços que nunca mais passam, só que mais quente. O marido e os filhos com uma fome de criar bicho. Diz o meu mais velho “Ó mãe, chega-te aqui.” E eu fiquei contente por ver que alguém tinha saudades minhas. E diz-me ele “Não tenho saudades, mas está frio e não me apetece ir buscar um cobertor.” A tratar a própria mãe como se fosse uma lareira ambulante. Que bonito! Eu que lhe faço sandes de tulicreme todos os dias para ele levar para a escola. Eu já o apanhei a ver a Playboy e não disse nada ao pai.

 

Vesti o pijama, nem o programa do Malato vi. Adormeci logo. Estava cansada de andar o dia todo a arder. No dia seguinte, tudo calmo. Nem sinal de fogo. Quer dizer, tinha três orquídeas a nascerem-me de um braço, mas o que é isso comparado com uma fénix humana?

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 20:41
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