Quarta-feira, 18 de Abril de 2012

O homem que nunca dorme

“Ó mariconço, eu nunca dormi.” Até hoje, não percebi porque me chamou mariconço, mas esse nome era uma constante sempre que vestia aquelas calças brancas justas no rabo. Adiante, até porque não é essa a questão central.

 

A questão debruça-se na incapacidade daquele ser em dormitar. Tinha quarenta e sete anos e nunca dormira na vida. Inacreditável! Mete o professor Marcelo no bolso. Não tinha nada contra ele, porque com a vida e com o rabo, cada um faz o que quer. Mas fazê-lo dormir, pareceu-me um desafio interessante.

 

É então que me lembro de uma manchete de um jornal antigo “Vinte e uma pessoas por ano morrem ao volante por adormecerem durante a condução”. Arriscado, mas mesmo assim tentei. Tudo bem que ele morria, mas pelo menos acaba com a vida a fazer algo que nunca tinha feito: dormir! E morrer não é dormir para sempre? O truque era cansá-lo, embebedá-lo e fazê-lo conduzir. Correu uma hora atrás de um jeep na A1, bebeu duas garrafas de whisky e meio litro de cachaça com rum e estava apto para conduzir uma carrinha com mudanças automáticas, enquanto ouvia o Oceano Pacífico. Senhor me perdoe, mas aquele homem disfarçado de girafa tinha que pregar olho. Já íamos a chegar aos Pirinéus, quando decidi abortar o plano. Conduziu em contra-mão, atropelou vacas e veados de três espécies e amaçou a frente da viatura contra a embaixada do Turquemenistão. Dormir que é bonito, nem nada. Mais desperto que um guarda real em sentinela.

 

Plano B! Ouvir a Odete Santos a falar. E para além dela falar naquele tom aborrecido e já de si sonolento, fá-lo em super slow motion e parece que tem quatro bolas de ping-pong na boca. Eu estou meio minuto a ouvi-la falar e fico “mais para lá, do que para cá.” Mas lá estava Amilcar, o homem que nunca dorme, a ouvir com atenção e a tirar notas. Parecia uma velhinha a ouvir aquele senhor que vende livros para emagrecer e para curar doenças no programa do Goucha.

 

Exigia-se, portanto, para esta situação limite de desespero da minha parte, algo que fosse de uma eficácia guilhotiniana. Mandei vir de Lisboa dois quilos de Xanax, porque quando são quantidades grandes tem que se mandar vir do estrangeiro. Tomou aquilo tudo que nem pintarolas. Ele levantou-se e eu perguntei-lhe “Vais dormir?” E ele diz-me “Não, vou mijar. Bebi muita água a tomar os comprimidos.” E a verdade é que não dormiu, nem sequer pestanejou. Fiquei decepcionado. Qualquer mortal teria uma overdose de sono e faria com que uma boa noite do mesmo tivesse, no mínimo, quatro meses. Ele não… foi só mijar.

 

Disse-lhe eu “Ó mariconço”- agora estava ele a usar umas calças brancas justas e com brilhantes no rabo – “Então tu não consegues deitar-te na porcaria de uma cama e dormir?” E ele “Cama? Não faço ideia o que isso seja.” A minha cabeça parecia uma lâmpada gigante da qual brotava a luz mais forte do universo e a minha boca esboçou um sorriso semelhante aquele quando se recebe a boa nova da paternidade ou se olha para um extraordinário bujão. Ou as duas ao mesmo tempo. Aquele individuo, não sei muito bem como, nunca tinha descoberto o poder de uma cama, porque nunca tinha visto, nem sentido uma. Vestiu um pijama, lavou os dentes ou os poucos que ainda tinha depois do acidente na embaixada e ouviu a música do Vitanha. Fechei-lhe o estore no mais negro dos breus e lá ficou ele a ressonar com um porco durante uns fabulosos… quarenta e oito segundos.

 

Levantou-se rejuvenescido, segundo o próprio. Diz-me ele “Calças brancas não te favorecem, devias usar um maiô.” E eu disse “Maio? Se é para falarmos de meses do ano, ao menos que seja de Dezembro que é um mês que apanha feriados, o mês do Natal e da Passagem de Ano e o terceiro aniversário de um raio-x que fiz à coluna.” Ele riu muito e disse-me, olhando-me nos olhos, não saber como me agradecer. Digo-lhe eu “Deixa-te dessa conversa lamechas. Estás a dar-me sono.”

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 22:00
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