Domingo, 22 de Janeiro de 2012

O Clero, claro!

Será melhor para a igreja autorizar o casamento entre membros do clero ou deve manter-se esta sombra que “persegue” o patriarcado, chamados corruptos e falsos espiritualistas que sedem aos mais básicos instintos humanos: o sexo: o pecado! A imagem transmitida pela Igreja no século XV – afirmaram-se como fonte da justiça divina e donos do poder incorruptível e da verdade – é distinta da doutrina em que o clero actual se baseia, onde a razão passou a fazer parte do dicionário eclesiástico (o que é um contra-senso se pensarmos um pouco), considerando-se os verdadeiros donos do saber enquanto forma de salvar o mundo. Transmitem uma imagem de abismo para que todos se deixem subjugar pela forma de ver o mundo dos que “sofrem um chamamento”, desviando o olhar da realidade actual, onde há uma “cientifização” das escolas e de toda a sociedade em geral. Além disso, para nos fazerem acreditar que um messias morreu e renasceu, atiram-nos à cara “provas” de que ele existiu realmente há milhões de anos atrás, quer dizer mostram-nos que havia um homem que, dizem os antropólogos, nem sequer é parecido com a imagem delineada pela Igreja, deixando a ideia errada de que tudo é claro e real. Uma metáfora perfeita daquilo que é a corrupção em que toda a sociedade está mergulhada, ou talvez, escondida…
Pode-se, então separar conceitos como cultura e religião? Estudiosos do passado diziam que não. Numa época anterior diria que não sabia, no entanto o meu cepticismo rapidamente se transformou em tristeza por olhar a minha volta e ver o que vejo; uma cultura e uma religião decadentes. Acabo, assim, por duvidar de mim mesmo e pensar que talvez eu seja demasiado criativo, já que para os outros tudo parece normal, normal de mais. Exceptuando um ou outro resmungo que não passará disso mesmo, porque o que vem depois dele implica esforço e os fins não justificam os meios. Mas só neste campo é que isto acontece, visto que há alturas onde o bem individual já legitima todas as acções que tenham de ser tomadas, inclusive passar por cima de terceiros. Não submeter as vontades individuais sob as colectivas e preservar o bem comum deve ser uma prioridade, aliás, é uma prioridade da Igreja. O mundo nunca avançará se apenas um homem fizer o que está certo. Mas o nunca é uma invenção. Muito perigosa por sinal, porque promove no relaxismo do homem. Torna-se mais fácil dizer que não se atingiria um determinado ponto, só por estar demasiado longe e termos de trabalhar para o alcançar. Tal como a forma de protestar portuguesa anteriormente citada, digo que não gosto, mas não faço por mudar aquilo que me incomoda.  
Voltando ao assunto inicial, pergunto eu, será melhor permitir o casamento dos sacerdotes? Bem, se deverá não sei, só os religiosos e entendidos na matéria poderão dizê-lo, no entanto e dada a tendência para a diminuição do número de padres ordenados, parece-me que, se a Igreja quer sobreviver, terá de se saber adaptar ao mundo (ao contrário do que sempre sucede). Afinal, o livro que fundamenta todas as crenças destes está cheio de exemplos onde o próprio Jesus Cristo se adaptou às circunstâncias que o rodeavam. Quem não se lembra da sua prisão pelos romanos? E se permitir o matrimónio destes, outra pergunta se impõe: deve permitir que este aconteça entre pessoas do mesmo sexo mesmo dentro da família religiosa?
O “sacratismo” antiquado que rodeia os padres começa a perder a força num mundo cada vez mais tecnocrata. Se os Sacerdotes querem ser considerados como representantes terrenos da Sagrada Família têm, em primeiro lugar, que demonstrar dignidade, serem incorruptíveis e, depois, actualizarem tanto na sua forma de estar como de ver o mundo. A ostentação transparecida pela Igreja, juntamente com a sua intransigência, são sombras que não descolam dela, por muito mau que isso seja. Esta sombra provoca desconforto nos cidadãos, porque eles não gostam de ver injustiças e a instituição que mais apregoa à luta contra as injustiças gasta muito do seu dinheiro em ornamentos e vestes que apenas chamam a atenção dos mais cegos. Será que substituir a veste dourada pelo traje de monge é rebaixar a Igreja ou é, pelo contrário, uma forma de torná-la mais humilde e próxima do povo?

 

Paulo Rocha

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Publicado por Universo de Paralelos às 13:16
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