Terça-feira, 5 de Novembro de 2013

Parte um de dois

Sentei-me junto da vitrine. Os tanques dos bombeiros passavam apressados. Aliás, passavam os tanques apressados dos bombeiros. As pessoas também seguiam as suas vidas em passada larga, também deveriam ter um fogo para apagar. Não sairia dali tão cedo como queria, o melhor era entreter-me. Estranho haver isto aqui. Peguei na national geographic e sentei-me enquanto as sirenes se desvaneciam no ar e comecei a ler um artigo sobre a coreia do norte. Vidas presas na era da informação. Só uma máquina bem oleada consegue tal feito, pensei.

 

Entrou uma senhora, curvada como uma velhinha, talvez a vida se tenha encarregue disso. Sentou-se mesmo ao meu lado, sem passar os olhos por mim. Estranho nos dias de hoje e com tantos bancos espalhados pela sala. Olhou depois para mim e fez uma expressão simpática sem sorrir. Fiz o mesmo enquanto desfolhava a revista inpacientemente, fechei-a. Deixei-a no meu colo, caso quisesse esconder-me nela.

 

Sofria do mesmo que eu, não queria ser vista. Levantou-se e foi procurar uma revista. Isso é a tv7dias? Não, não. Julgando-a silenciosamente, como poderia confundir as duas? Como estava virada para baixo, pensei que poderia ser. Mas esta tem artigos bastante interessantes, se quiser... Não queria distraír-me. Passar o tempo a coscuvilhar a vida dos outros era tudo menos interessante. A modernidade não tinha chegado apenas no peso dos computadores, pensei. Pois, é mais leve ler algo do género. Sim, respondeu, tem mais imagens e, confesso, alegra-me mais o mal estar dos outros do que o bem estar dos animais.

 

Olhei para a secretária, querendo ignorar o que acabara de dizer. Ela focou-se no que se passava lá fora. Pessoas a passar, nem lhes via a cara. Para quê? São cópias. Um cartaz dizia, não deixe a alma para traz, leve-a consigo. Comprometi-me com ele. Voltei-me para ela, os animais também querem amor. Esta é uma forma de lho dar, embora não se importem nada com isso. Ela respondeu afirmativamente com a cabeça, sem saber o que dizer. Continuei, já enterrei alguns animais e até mesmo bebés recém-nascidos. A expressão de horror da senhora foi instantânea, mas não se moveu do meu lado. É igual, continuei, o sentimento confere validade tanto a homens como a animais.


(continua na próxima semana)


Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 08:10
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