Terça-feira, 6 de Março de 2012

Diário de um regresso a casa

Em termos de uso da língua, nunca da maneira que os nossos três queridos leitores estão a pensar, porque eu apenas me refiro ao português falado, há dois tipos de pessoas: as que falam pouco e os desbocados. O problema das que falam pouco é que só lhes conhecemos a voz quando estão bêbados. Quando nos referimos às desbocadas – e eu sei que há sempre um destes em todos os grupos de amigos – podemos dizer que conhecemos não só a voz como sabemos exactamente em que tom é que vão dizer qualquer coisa de extremamente parvo. Verdade? 

Reparem, quando a voz dessa pessoa começa a ficar estranhamente aguda. Preparem-se! É neste preciso momento que ela vai soltar a bomba! E como se não bastasse, ainda se parte a rir, enquanto coça desesperadamente a barriga e bate com a cabeça nas paredes! Não, isto já sou eu a alucinar com o cheiro ao suor do meu parceiro de viagem neste autocarro a abarrotar… Só faltava mesmo que alguém vomitasse cá dentro! Na realidade isto já aconteceu e os presentes não reagiram nada bem.

Ah, perdoem-me mas terei que acrescentar uma subcategoria que se localizaria dentro das “desbocadas”, são aquelas que falam um “niquinho” mais baixo do que as “tias dinas” deste pais. No entanto, fazem-no dentro de um veículo partilhado por várias pessoas, vulgarmente chamado de camioneta (pelas senhoras de cabelo branco e bigode). E descobri esta subcategoria precisamente agora, porque há uma senhora à minha frente que representa perfeitamente esta situação.

Esta senhora, vai no meio do autocarro a contar a sua vida não só à pessoa que a ouve do outro lado do telemóvel, mas também a todo um conjunto de pessoas com quem viaja. Não obstante, fá-lo irritantemente alto. Não gosto de rotular as pessoas, mas ela parece uma “peixeira” no Bolhão quando o Goucha lá vai dar uma volta durante um dos seus programas matinais.

Uma vez ou outra penso que a “sobaqueira” deste senhor ao meu lado tem efeito sobre mim e que eu estou só a exagerar. Infelizmente acabo por cair na realidade quando oiço frases como “ela vai-se foder, porque eu parto-lhe o focinho!” ou então “faço-lhe uma espera, que a f#$%!” Mas qual não é o meu espanto quando vejo que todos olham para ela e esta não modera minimamente o seu tom de voz, fazendo como se não houvesse mais ninguém em seu redor. Além de todo este panorama do qual vos falei, ainda tenho a minha mala gigante ao meu lado, porque, veja-se, não cabia mais nada na bagageira... Enfim, parece que estou na Índia…

Bem, vou só tentar encostar a cabeça e ver se durmo um bocado, para ver se este pesadelo de viagem melhora qualquer coisita. Não sei se conseguirei adormecer com este “chinfrim” à minha frente. Perfeito, perfeito – como dizia aquele “lingrinhas” alto numa afamada publicidade – era a bateria do telemóvel desta senhora acabar e o meu vizinho sair na próxima paragem… Mas, como diz a minha querida mãezinha, não se pode ter tudo. O problema é que neste momento eu tenho tudo, tudo aquilo que eu não quero ter.

 

Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 14:01
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