Terça-feira, 2 de Julho de 2013

Satisfeito faz-me insatisfeito

Pensas que eu vou jogar este jogo contigo? O que eu tenho é meu e só meu. Falas disso, propagandeias isso, apregoas isso, humilhas-me e eu não percebo porque é que não saltas fora. Sem o pilim não tens resposta para mim, ninguém tem resposta para ninguém. Sem ele não me largas, mas eu também não quero largá-lo. Sem a nota ninguém se “deslarga” de ninguém, porque é ele que faz acontecer e não a força de vontade ou o sonho a sede de vitória ou a vontade de estar bem, ou a autoconfiança ou a determinação. Sem eles ninguém é tudo e tu muito menos.

 

Antes tivesses escamas e, pelo menos, sentia algo em ti. Não que gostasse de ver, pior! sentir, a minha mão deslizar, num gesto tanto carinhoso como displicente. Força do hábito. Antes tivesses rugas, seria bom sinal. Essa pele lisa só faz de mim ainda mais velho.  Não te tratas, nunca te trataram, habituaste-te mal. Habituaram-te mal. Para mim é muito difícil colocar-te as culpas em cima. Sou parte integrante disso.

Fomos feitos um para o outro. Quando nos conhecemos. Agora somos só um e outro, eternamente ligados por coisas. Tu foste assim, és assado. Eu sou assim e não interessa o resto. Como dizia, diz e há-de dizer Miguel Esteves Cardoso, somos “sapatistas”, baseando-se na ideia de coleccionar sapatos. Segundo ele, sapatistas são as pessoas “que perseguem ou adiquirem uma grande quantidade de coisas que só se podem usar uma de cada vez”. Eu sou sapatista, tu és sapatista, ele é sapatista, nós somos sapatistas, ou seja, coleccionistas.

 

Perguntei-me enquanto li esta crónica, o quão sapatista eu seria. Apercebi-me que não me encaixava bem no grupo de MEC, chamemos-lhe assim. Sou mais um coleccionista, talve um “acumulista”. Posso ter na minha cabeça mais de mil definições daquilo em que consiste este jogo ou das regras a que me sujeitei e das que me levariam a um fim mais glorioso. Recuso deitar fora todas as circunstâncias, porque estaria a deitar-me fora. Mas até que ponto estarei eu correcto?

 

Poderei eu colocar-nos no lixo, sem deixar de pensar que um dia há-de haver concerto para isto? Não deverias sequer ter começado a coleccionar. Respondes-me silenciosa, velha, cansada, descaída que só não saltaste fora porque eu te ia deixando ficar. Ia coleccionado definições e desilusões enquato tu simplesmente ias ficando. Dou cabo de mim, satisfazendo-te. Espero, experimento, exponho-me ao sapatismo. Camadas em cima de camadas. Esta relação umbilical deita por terra toda a vontade que poça ter para reduzir o teu tamanho, os ingredientes no meu prato ou, em última instância, a minha conta bancária.

 

Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 20:33
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1 comentário:
De golimix a 11 de Julho de 2013 às 17:32
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