Segunda-feira, 27 de Maio de 2013

Escrever a meias #4

 

O Regresso do Medo

 

Acordei com o estrondo. Não! Acordei com um barulho estrondoso!

Estou deitado numa cama escura, num quarto escuro onde o próprio silêncio é escuro.

Até a minúscula janela junto ao tecto está escura como se lá fora toda a luz tivesse sido sugada por uma enorme escuridão que tudo envolve, que tudo engole.

Olho em redor de mim sem nada ver.

Porque nada há para ver. Excepto o escuro que se vê mas não se vê. Porque é escuro.

Fico atento querendo decifrar um qualquer som que me ajude a perceber onde estou. Nada!

Não me atrevo a mexer-me receando que o ranger da cama denuncie a minha presença, sem perceber minimamente a razão deste receio.

 

De súbito… Senti o vento a passear-me nas costas. Arrepiei-me e puxei os cobertores, apertei-os contra o meu corpo. Na verdade, não sei se o fiz por ter frio ou por ter medo, mas esta escuridão deixa-me desconfortável. E o silêncio, sinónimo auditivo de escuridão, ainda me deixa mais incomodado. Merda! Daqui não consigo chegar ao interruptor da luz, teria de me descobrir. E se sinto outro arrepio? Mais vale estar aqui quieto, deitado, coberto, no meio do vazio.

Mesmo assim, os meus olhos aproximam-se cada vez mais daquele quadradinho minúsculo, como se a minha cabeça se separasse do corpo e levitasse, para ver lá fora, as nuvens que mancham o céu. Mesmo que não haja nuvens, mesmo que não dê para ver o céu. Tudo é melhor que ser escravo destas trevas que escondem a luz no silêncio. Como me assusta o silêncio. Alguém que grite, que parta um vidro, que passe as unhas num quadro de ardósia para haver barulho. Medo, muito medo, do silêncio.

 

Outro barulho que faz questão de ser ouvido. São eles, tenho a certeza que são eles. De caras feias, caminhar sincronizado, intenções malévolas. Saem de todos os sítios possíveis e não possíveis. Dos armários, de baixo da cama, de trás das cortinas. Vêm com o propósito do meu fim. Esta procissão de criaturas feias é liderada por um palhaço de roupas rotas e cara pintada com tinta preta, que lhe esconde as cicatrizes. E no fim desta procissão de bestas, que me tentam subir para a cama, está a mais temida, capaz de desmanchar uma nação só com o olhar. Deve desfazer crianças numa tijela com leite e saboreá-las da forma mais macabra que consegue. É um gordo feio, sem uma mão e aspecto de quem não tem amigos porque os comeu, de alcunha “Noodles”.

Os meus olhos estão abertos, cravados no vazio e o pensamento grita por clemência.

 

Quero ser salvo por uma luz que venha do corredor. Era a altura perfeita para os meus pais me virem desejar boa noite e só apagarem a luz quando já tivesse caído no sono profundo. Não era um sono de beleza, mas uma beleza de sono.

É mais saudável imaginá-los assim, consigo imaginar os seus gestos carinhosos, sempre que me deitava, fossem noites de inverno ou verão. Mas o meu ego, que me tentava dar uma pouco de realidade dentro do sonho, levava-me de volta ao pesadelo. Outra lufada de ar a passar-me pela espinha chamou-me novamente à escuridão do quarto. Nunca tinha sentido uma casa tão silenciosa. Aliás, nunca tinha visto a cidade tão triste. E os monstros em surdina, pé ante pé, como tigres que vigiam a presa para a surpreender, aproximavam-se. Eu não os ouvia, mas sentia-os perto. Quase que respirava as pestes que de pequeno só tinham o tamanho.

 

E aquela janela, começava a latejar, bruscamente, sem parar, como que se fosse uma voz amiga a avisar-me do perigo que corria. Este pesadelo estava a dar cabo de mim. Ah, o palhaço novamente! Nem os olhos fechados me impedem de o ver, tem o abanar de cabeça do meu pai, zangado. Não sei porque solta tamanhas gargalhadas. A sua expressão medonha não me deixa ficar confortável assim como o facto dele não parar de dar voltas à cama. Aquelas manchas negras que substituíam os olhos não são nada agradáveis, cinzento agreste dos lábios, os dentes afiados, o chapéu amarrotado. Tal performance só teria lugar no circo das sombras, carro ambulante que fazia as delícias dos putos que se portam mal e vão para o inferno.

O medo fazia o velocímetro do coração colar no valor máximo e isso cansava-me. Deixei-me vencer. Adormecia.

 

Repetiu-se o pesadelo, incómodo, que torna as noites intermináveis e me deixa enjoado por ver o filme repetir-se novamente, novamente e novamente. Igualzinho. Nem mais uma estrela na janelinha, tal como da última vez. Irritado com as fintas que o meu subconsciente me ia pregando, quiz quebrar aquele silêncio e, mais do que tudo, esquecer o passado. Atirei os cobertores ao ar, literalmente, só não voaram mesmo porque não tinham asas. Coloco o meu pé direito fora da cama, pendurado, perpendicular ao chão. Lanço-me para fora da cama, com o movimento de quem inicia uma prova de esforço. O tapete desliza pelo chão encerado, o pé imita-o e caio com enorme estrondo no chão. A perna estava entorpecida.

Desta vez, o pesadelo não acabava assim. Acordava estremunhado, sentado na cama, num quarto onde todos esperavam que acordasse. Os raios de luz matinais, que incidiam directamente nos meus olhos, cegavam-me. Via tanto como na escuridão, mas sentia-me mais seguro, porque havia luz.

 

Puta que pariu o tapete! Um “puta que pariu” fora de tempo, mas foi tudo tão rápido até ficar inconsciente que não tive tempo para o dizer noutra altura mais apropriada. Peço desculpa a todos por o ter dito alto. Espera, eu não me ouvi praguejar. Bato com a mão direita na esquerda, sinto o toque, mas não sou nada. Grito! Sinto as cordas vocais doridas devido ao esforço, mas não me consigo ouvir. Atiro coisas contra a parede, mas o som da desintegração não me alcança os meus ouvidos. Não me consigo ouvir embora não pare de gritar. Como um louco segundo me parece. Podia confirmar-te se me conseguisse ouvir. A metamorfose dos gritos em choro é rápida, esperneio-o para me sentir vivo. Estou agitado, sou uma válvula a acusar o máximo de pressão e tudo o que eu escuto é um enorme nulo.

 

Este pesadelo tinha contornos diferentes: devolveu-me o pavor do silêncio permanente dos tempos de criança e, quando acordasse, ia ser muito mais doloroso do que era este sonho.

 

 

 

 

Um abraço ao José pelo tempo disponibilizado.

Publicado por Universo de Paralelos às 13:37
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4 comentários:
De João Correia a 31 de Maio de 2013 às 16:58
Muito bom!
Parabéns!


De golimix a 31 de Maio de 2013 às 20:05
Que posso dizer?

Está divino!
Está soberbo!
Está simplesmente bestial!

O trio perfeito! =)

O meu amigo da Blogosfera, o querido José da Luz, deixou aqui, juntamente com vocês uma escuridão iluminada pela imaginação! Uma imaginação à sua boa maneira.
Um bem haja!

Bijix XXL


De DyDa/Flordeliz a 3 de Junho de 2013 às 23:36
Viva a imaginação José
Não esqueças os tapetes escorregam e de noite os gritos ouvem-se com força, especialmente se forem "pecadilhos".
Parabéns


De Kok a 5 de Junho de 2013 às 12:25
Ao Paulo e ao Johnny um abraço e um duplo obrigado por tranformarem a minha ideia (diria de gosto pouco expressivo) num excelente texto.
Gostei imenso de vos ler.
O tempo "disponibilizado" (como dizem) não poderia ter tido melhor finalidade.

Abraço


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