Terça-feira, 21 de Maio de 2013

Técnicas de migração inovadoras

Já alguma vez tiveram uma vizinho/a convencida? Por acaso, já viveram porta-a-porta com um vizinho/a que se preocupa convosco? Será que há vizinhos/as que, realmente, não querem morar perto de vocês? Ou já ouviram ecos falsos sobre vocês provenientes da casa ao lado?

 

Para mim, os vizinhos são o melhor e o pior que podemos ter, muitas vezes são vistos como factor decisvo quando, por alguma razão, se impõe uma escolha entre assentar arraiais num meio citadino ou num meio rural. Porque, diz-se - eu próprio partilho dessa impressão - que num ambiente mais citadino há mais barreiras no contacto com aquele que mora na porta do lado. Muitas vezes porque os horários não coincidem, demasiadas vezes porque o stresse diário não permite e porque normalmente a campaínha está avariada.

 

Não obstante estas razões serem válidas, não posso afirmar com completa certeza que esta distância é apresentada como a razão de todos os males socio-urbanos. Isto porque me estou a recordar de uma anedota que ouvi há umas semanas atrás e que relatava a história de uma canção – só é anedota por ter sido amplamente divulgado pelos meios de comunicação social.

 

Além da vizinha se sentir mal com tamanha indiscrição, ninguém me tira a ideia que a senhora gostaria, na realidade, que os versos da canção lhe dissessem respeito. Ora se, na altura, as injúrias e a difamação das quais a vizinha se queixava não passavam de um mero apontamento local, é bem possível que a senhora se sinta muito mais desrespeitada depois de ter tornado esta música num fenómeno “pimba” nacional.

 

Pode-se descrever a vizinha como uma pessoa extra-sensível e algo egocêntrica processou o cantor, Pandim da Graça viveu momentos cómicos, a desgraça caiu sobre o artista e nas boas graças dos média nacionais. E nem a boa convivência tão característica de zonas rurais, safou o “cantor” de tamanha publicidade. Uma coisa agressiva, de facto.

 

Até o Quim Barreiros deve ter pena por não ter nasvido num meio rural do género, bem perto de uma vizinhança tão reacionária, com cabritinhas e gelados de framboesa, brioches feitos com arte e saber e tesouras para aparar o bigode.

 

Ouro sobre azul para o homem que, num misto entre golpe de sorte e de génio (se assim foi, devia conhecer bem a vizinha e esperava tal reação, pois não havia ninguém com o mesmo nome nas redondezas), se tornou no rouxinol da música popular portuguesa. Neste momento deve doer o cotovelo a muitas produtoras nacionais que nunca se lembrariam de tamanho golpe de génio na promoção de um activo seu.

 

Neste caso, a amizade entre vizinhos desfez-se entre o romantismo inveterado do artista e a egocentricidade púdica da vizinha, sem nunca esquecer a malícia que ambos viram numa música que é tão pura e inocente como o Carlos Silvino no processo “Casa Pia”. Mas percebe-se que todo o processo foi uma diversão. Pelos vistos, os movimentos internos de migração recomendam-se, à imagem do que acontece com técnicos agrários e cantores populares nacionais. Tendo em conta os recentes êxitos, ainda há vida nas regiões mais remotas do nosso país.

 

Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 13:00
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