Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

Gente do nosso tempo

Desprezo o elogio. Aliás, não desprezo, desgosto, porque desprezar fazer-me-ia negar algumas vantagens que este possa trazer ao humano, principalmente psicológicas. No entanto, sinto-me desconfortável com a sua presença. É como se se tratasse de um canguru, até é bonito, mas não me sinto totalmente à vontade perto dele. Além de fazer corar as faces, fico sem saber o que dizer e não sei como reagir.

Não gosto que aqueles que ainda não tiveram a felicidade de conhecer Freud me apelidem de “senhor doutor” e se o conhecem agem como se nunca tivessem ouvido falar de tal figura. Alem de achar que a expressão é usada de forma incoerente mais vezes do que o desejado, confesso que não tenho um conhecimento alargado sobre anatomia.

 

Esses sim, merecem ser tratados com toda a circunstância possível e pompa desnecessária (aqueles que não estão na urgência no turno da noite, claro), se concordarem. Merecem-no, porque chegam a salvar algumas pessoas e porque não é possível salvar todas. Como país com histórico na evangelização temos a obrigação de ser compreensivos, pois a religião também funciona assim, só não é preciso é pagar pelo serviço, pelo menos no acto da inscrição.

 

Desprezo, voltando ao assunto principal, o elogio brejeiro, um bocadinho o irónico e, talvez, o sarcástico. Nem é pela falsidade de quem o diz, e não do que é dito, mas sim por revelarem a dor de quem o afirma. Imagina que penso e que “me acho”, julgando-me de peito feito quando ele – o elogio – nem sequer consegue entrar, quanto mais sentar-se à minha mesa. Eu desprezo-o porque ele é tão necessário como um gorila a trepar o Empire State Building.

 

Chamo-me Paulo, Paulinho, Paulito, Coiso se acharem bem. Não tenho o hábito de sujar as mãos, mas também não me importo de fazê-lo. Normalmente, diz a sabedoria popular que “o senhor está no céu”, não digo que não esteja, mas ando aqui com um torcicólogo e não consigo confirmar isso. Contudo, e tendo em conta este ponto de vista, o senhor não deve estar no remetente das cartas nem como titular da conta bancária, mas sim no acto de enviar a carta o transferir dinheiro. É óbvio que os gestores acham que a falsa amabilidade de acrescentar duas letras e um ponto lhes confere o direito de cobrar mais um por cento de juro, serviços ou qualquer outra coisa que inventem para nos sugar até ao tutano.

 

Ele – o elogio - vagueia, ou tenta, nesta dança de inconveniência, que vê esfumar-se a sua legitimidade na insuficiência de quem o carrega. Eventualmente, posso precisar dos outros e eles podem, ou não, precisar de mim, talvez a balança pese mais no primeiro caso. Digo isto enaltecendo a mesquinhez de quem se sente insuficiente.

 

Não minha opinião, não existem nem devem existir duas perspectivas, mas sim uma perspectiva dividida ao meio pelos perspectivadores – cada um de nós representa um dessas duas -, fazendo-o ao mesmo tempo que imaginam outros com a faca na mão. Já viram o genérico do novo programa da RTP1 “Nada a Esconder”?

 

Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 16:47
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