Domingo, 14 de Abril de 2013

Destino: em frente!

“Portugal, Portugal, de que é que tu estás à espera?” É assim que, dizem-no homem sem esperança, interroga o indigente. E interroga muito bem. Não sei se o faz como consequência da falta de esperança, de excessos provocados por excessivos hábitos seus ou pela falta de algo melhor para fazer (que português!). Mas não vamos estar aqui com especulações porque o que interessa é que ele o fez bem – e continua a fazer –, o resto são histórias.

 

Por mares e marés nunca antes navegados, fugindo a ondas de 34 metros – gostamos é de estabilidade -, enfrentando espíritos mais imaginados do que vistos, mais apregoados do que notados, sempre com um pensamento filantropo nas suas cabeças: dar mundo a nós próprios; Mais, dar novos mundos ao mundo e, claro, prevaricar o homem; aliciar o ser humano para novas carências que irá sentir, com certeza; prevení-lo da sede de conhecimento que padecerá o mundo quando avistar tais feitos e precavê-lo acerca do desejo de posse que florescerá em nós.

 

Nessa altura, já prevendo amanhã de mui amada nação, se ia procurando, mais do que o futuro da pátria, o presente do patriota. Como diz o outro, “tiveste gente de muita coragem”, ó Portugal, e isso é que fez de nós Portugal há quase nove séculos. E ainda tens, acrescento eu agora, tens esperteza, mas perdes-te no lamento; aí reside a falta de inteligência. “Portugal, Portugal enquanto ficares à espera ninguém te pode ajudar”, continua o cantor, sobre o português, tu, eu, nós.

 

Navegaste, pensamos que era o suficiente para flutuar agora. E foi o que fizemos, temos vindo a flutuar sem largar a inercia um único segundo. Frágeis, sentimo-nos frágeis, perdemos a agilidade de espírito. Esquecemo-nos que nada é estático, nem mesmo a recordação. Refazer a memória não implica apagar o passado, mas sim sentir o presente para traçar o futuro. Endireita-mos o que foi ficando torto e “pode ser que, por milagre, troquemos as voltas aos deuses” – disse o Palma.

 

Demos também filhos ao mundo. Fomos pais orgulhosos, agora somos mães ofendidas – e não pensem que a ironia reside na guerra dos sexos. Ganhamo-nos sem meter água, acrescentá-mo-nos as vírgulas e os acentos sentamo-nos a lê-los calmamente. Somos grandes, fomos grandes. Ninguém pede que se navegue todo e qualquer canto à procura de metal, exige-se antes que demos passos firmes em terra, mesmo que ela seja movediça; se a água não nos engoliu, a terra também não o fará.

 

Felizmente, todos os meses estamos prenhes de nove meses, infelizmente todos os meses voam metade deles daqui p’ra fora. Agora, os embriões ofendidos lêm a história como se fosse uma história, os pestinhas ouvem-na sem a perceberem. Mas como, se esta história já não é minha? Claro que não é tua, é nossa. Foi assim que navegaram caravelas que Adamastor nenhum parava nem velho do restelo nenhum maldizia, é assim que temos de navegar agora... em terra.

 

Não temos a memória, só restou tamanho da barriga, talvez nem isso. A ganância fora tanta e agora não é nenhuma. Bem sei que não é a melhor dos predicados; o burro também não é tão dotado como o cavalo, no entanto também puxa a carroça. Nações não são (re)feitas sem vontade e, se quisermos, pode ser hoje, agora, já! E sem lamechices.

 

Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 19:15
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1 comentário:
De golimix a 28 de Abril de 2013 às 18:47
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Magnífico! Digno de destaque!


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