Quarta-feira, 27 de Março de 2013

Um ele e uma ela (parte I)

Ele achava-se inteligente, apesar de não saber se o que dizia tinha sentido. Isso pouco importava, já que os elementos do sexo feminino que tinham a sorte de se cruzar com ele, acabavam por gostar da sua conversa - achavam-no inteligente -, não percebiam o que ele queria dizer com aquelas exclamações, mas o piscar do olho funcionava, assim como as palavras elaboradas.

 

- Haveria de ser algo muito "à frente".

 

Não sabiam elas que esse pensamento três passos à frente não passavam de três saltinhos em pé-coxinho, sempre apoiados na incerteza da queda. Os olhares calados partilhavam uma ideia subentendida de que poderia haver uma ligação mais produtiva entre ambos. Ele, habituado a situações do género, era uma vez mais apanhado com a "boca na botija", algo que, definia como "males necessários", se quisesse chagar a ser alguém na vida.

 

- Tenho de arranjar outra ocupação, esta não é me completou.

 

Pensava ele, sempre com a postura e confiança que o vestiam todos os dias, mas com alguma presunção que acabava por deixá-lo sempre na corda bamba. Não tinha preciosismos nem purismos acerca das pessoas, apesar de ser alguém tradicional.

 

- Tu nunca desistes? Já está na hora de usares essa inteligência para algo verdadeiramente real, útil...

 

Sempre de sorriso matreiro na boca, que não deixava de ser um pouco vingativo, por este tentar falsear quem não tinha a ligeireza de pensamentos dele.

Não sabia ela que o real não tem a subtileza necessária, ou sabia? Pensava ele enquanto franzia a testa, numa expressão de desprezo, nunca excessiva já que a afinidade por estes "castigos" não lhe permitiam tal ousadia.

 

- Nunca perdes esse sorriso maléfico?

 

- Eu é que tenho o sorriso maléfico?

 

- Não sei, deixas-me na dúvida. Lembras-me aquele filme o advogado do diabo, não sei porquê...

 

Vitorioso com tamanha analogia e, principalmente por não a deixar dizer a última palavra (esta parte é essencial nos filmes). Ladrão que se preze nunca perde a pose, mesmo antes de zarpar. - pensaram os dois, embora com sentimentos diferentes envolvessem tal raciocínio.

Ela rapidamente substituiu a maldade pelo orgulho, virou costas e seguiu sensual, com a pochete pendurada no seu antebraço e passos de modelo, o seu destino. Tinha mais do que fazer.

 

- O bordô combina bem com os vermelho dos lábios, combina com esta avenida, com o mar, talvez comigo...

 

Agora já podia dizer o que lhe apetecia quando estavam demasiado perto, não corria o risco de levar um chapada, pior um olhar desviado ou um telefonema imediato para as autoridades.

 

- Nunca!

 

Ele estava completamente desfasado da realidade, nunca aturaria um desavergonhado só por este ter mais estilo e um emprego menos seguro. Talvez fosse ela que não estiva enquadrada com a (minha) realidade, ao mesmo tempo que voltava a perpetuar-se nela aquela tendência maldosa que a fazia praticar a lei.

Ambos seguiram os seus caminhos, distintos por natureza, com pensamentos cruzados pela afinidade. Ela, advogada respeitada entre os seus pares, queria fazer cumprir a lei quando ainda menina sentia as injustiças dos outros. Ele, advogado de si próprio, só quer fazer cumprir a lei da natureza, mas sempre com sensatez e atenção por quem prejudicava, um Robin Hood de fato e gravata, mas que vestia o fato de macaco sem rodeios (mas com receios de ficar sujo mais tempo do que o necessário).

 

A esperteza e a sorte, mais vezes do que gostaria, eram as alavancas desta vida para a qual a curiosidade o tinha empurrado. Ambos protagonizavam uma disputa entre gato/a e rato interessante e, melhor, incessante; apreciavam esta troca de carinhos mais do que deviam, pois sabiam que algum dos crimes que poderiam cometer lhes traria um amargo à boca. Ele achava-a atraente, aliás, achava atraente a dificuldade, todos os prós e os contras proporcionados pela situação.

 

Ela dava-lhe para trás no charme, com charme. Do género, chega para lá essa nuvem de charme que eu não me quero envolver nela já, acho que prefiro usufruir disto. O prazer pode perder-se se damos o passo maior do que as nossas pernas. Antes vê-lo atrás das grades do que na prisão invisível. Antes sentir a constante temperatura do sol do que lamentar os arrepios da sua inconstância. Chegou mesmo a tê-lo na mira da glock mas, mais uma vez, as falinhas mansas - não ele, ela não o gramava... - deram a volta à situação. O seu vício era facturar e ela, uma mulher da lei, quis fazer justiça, mas sem as demoras que os tribunais acarretavam.

 

(Continua...)

 

Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 15:05
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