Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

ENTRA E BEBE UM COPO TRAFULHA!

O português é bom na trafulhice, a dita burla. Os negócios de alta qualidade, refinados – pronunciados com tão distinta palavra até parecem legais – não são para os descendentes de Camões, tão valoroso cidadão. Pensando bem, a burla e a vigarice são primas do desenrasque (palavra que só nós conhecemos). Vejamos, aqueles que trabalham no “alto negócio” são apanhados, ao contrário daqueles que são “amigos” dos velhotes. “Sou colaborador do Fundo de Poupanças da Boidobra e estamos a verificar se as pessoas têm dinheiro em casa”. Anda, então, o “ladrão bem parecido” a roubar aquilo que o “ladrão mal parecido” pode rapinar. No entanto, o ladrão filho da puta, que faz os mais medrosos pôr trancas redobradas na porta, tem que esperar que chova, enquanto o ladrão engravatado lhe passa a perna num dia de sol.
Se bem reparo, acabam todos por ser ladrões, embora o aspecto dite aquele em quem se confia. “É pá, ele trazia os papéis todos do banco. Mostrou-me a identificação e tudo!” – incrível, digo, pois se lhes perguntarmos o nome, dirão: era… era… zé… já não me lembro… Parlapié é a chave. “Olá minha senhora, como tem passado? Não lhe venho pedir nada, é precisamente o contrário. Sou o representante do fundo de poupanças e apenas venho zelar pelos seus interesses” - Neste momento o pobre do cidadão já só pensa nos cifrões e esquece-se de ouvir o…Zé (cheio de sorrisos na cara e com toda a boa-fé existente no mundo).
“Venho preveni-la para a onda de furtos que tem havido nesta zona, se tiver dinheiro em casa tem de guardá-lo num sítio seguro. Os assaltantes são mais que muitos e inteligentes (num auto-elogio que só demonstra a sua pequenez). É preciso muito cuidado!”. A conversa complexa do senhor faz a senhora acreditar naquilo que ele está a dizer, mesmo não sabendo bem do que se trata. Mas um rapaz tão bem aprumado, deve perceber muito disso…
“Só tem de assinar aqui e ali e fica tudo nos conformes. Não se preocupe! Apenas tem que me dar a nota de mil que ai tem e assinar aqui.” Os pobres coitados que, se for preciso, nem sabem escrever o próprio nome acreditam, porque no tempo deles nada era tão burocrático e o trabalho bastava para se ter uma vida feliz. O dinheiro era para os ricos, os pobres nada tinham a ver com isso. Agora, a sociedade consumista transformou homens em bonecos e valores em pormenores.
“Para você até lhe faço um desconto, porque vejo que não tem possibilidades”. Até o mais pobre dos homens ambiciona ter mais dinheiro, mesmo sem saber o que fazer com ele. A evolução da nossa sociedade, de rural para citadina, é símbolo do progresso. No entanto, aqueles que acreditavam na “Família, Deus e Pátria” sentem-se perdidos: esses “luxos” não lhes pertencem. Quando falam em computadores, falam implicitamente em tudo isto, com mágoa e desdém suficiente por aquilo que a máquina lhes roubou.     
O tuga faz as coisas olhos nos olhos, não confia na sociedade da formação e informação, embora lá vá dizendo que a escola é importante. Mas para eles a escola da vida é e sempre será a melhor. As coisas fazem-se de forma rudimentar, porque as coisas sempre se resolveram assim. O contra-senso disto é que o pelintra com um fato – educado na escola da vida – será sempre fonte de confiança, mesmo que enrascado. O ignorante, que procura a burla fácil, acaba por ser ajudado pelo pouco instruído, desconfiado, roubado da forma mais simples possível.

 

Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 18:48
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