Segunda-feira, 11 de Março de 2013

Zé numa história curta

Ele deixou de existir. Ela morreu também, com a promessa de lhe levar flores.

 

Zé era um homem normal, com uma casa normal, um carro normal e uma vida normal. Normais eram também as suas qualidades. O que não era normal foi o que lhe valeu a alcunha quase desde que nasceu.

A menos de 5 metros sentia-se um cheiro mau que lhe vinha dos pés e as pessoas fugiam em pânico, os alarmes soavam, as paredes ruíam, a natureza murchava e o pobre Zé entristecia.

Concordavam todos que o odor virava fedor insuportável. Mas as comparações eram diversas. Uns diziam que era igual a comida estragada. Outros associavam a corpos em decomposição ou a ração de bovinos misturada com lixívia. Havia até quem dissesse que dos pés dele se sentia o cheiro a cocó de bebé fechado num armário há mais de uma década.

 

O único defeito de Zé-Chulé era o mau hálito… Tomara ele que fosse. Vinha um cheiro tão forte a ETAR dos pés que se tivesse mau hálito, nem se notava.

 

Farto de viver assim, decidiu comprar uma corda forte e escolher uma ponte alta. Caminhou até ela em passos fúnebres e de coração quase parado.

 

Quando lá chegou, não era evento único. Ao seu lado estava uma mulher com cara de quem já tinha desistido de viver. E o mais estranho não foi a vontade que sentiu em evitar-lhe a queda. O mais estranho foi o pensamento que antecedeu esse momento. Ela estava a poucos metros e ainda não tinha fugido, não tinha gritado, não tinha esperneado, não tinha contorcido o rosto em agonia, não tinha mijado nas calças em pânico.

 

Ele puxou-a para o lado da salvação que sucedeu a um imprevisto “Não te mates”. Depois… Depois viveram a parte gira de uma comédia romântica de segunda categoria. Passearam na praia, foram ao cinema, comeram esparguete, feitos Dama e Vagabundo e independentemente da variedade de programas, acabavam na cama, felizes e cansados. Umas vezes mais felizes, outras vezes mais exaustos. Dois seres humanos a viver todos os clichés possíveis. E como os clichés eram bons de ser vividos!

 

Mas a pergunta repetia-se de forma constante na sua cabeça. Zé teve de lhe perguntar “Porque te tentaste matar?”

Ela respondeu, com a tristeza imposta nas expressões pela imprevisibilidade da pergunta. “Eu não tenho nariz. Todos se riem de mim e esticam o dedo na minha direcção quando o fazem.”

 

Pum-pum!... Pum-pum!... Dilema imergente de o fazer nadar contra a corrente.

Fez o que achava certo.

Talvez para lhe agradecer os bons momentos passados, talvez por achar que era justo, talvez por… não sei. Sinceramente, não sei porque o fez. Mas quando fez chorou, resgatou a corda já com o nó pronto para o seu pescoço e escolheu outra ponte para não lhe trazer recordações. Enquanto ela… ela sonhava com o rosto dormente no rosto que teria. Habitava de corpo imóvel num leito esterilizado, rodeada pelos discípulos de Asclépio.

 

Esta é a história de Zé-chulé e a mulher sem nariz, que o tem desde há meia vida. Exactamente o mesmo tempo com que vive com Zé, um homem com um defeito enorme, mas com muitas qualidades normais. E todas juntas fazem dele um ser humano maravilhoso.

Hoje, ele deixou de existir. Ela morreu também, com a promessa de lhe levar flores todas as semanas.

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 16:46
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1 comentário:
De golimix a 11 de Março de 2013 às 19:18
Muito triste a história do Zé Chulé...


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