Domingo, 20 de Janeiro de 2013

Era uma vez num filme...

...onde semeavam o temor fora de portas e, implicitamente, dentro de portas. Nesse mundo de fantasia, quem estava dentro de casa tinha medo que surgisse um bandido vindo de fora cada vez que a porta entreabrisse. Pensavam todos da mesma forma. Haviam efeitos secundários: quando os misters não conseguiam o que lhes deveria pertencer por direito, ficavam chateados e atacavam.

O filho de uma das personagens decidiu fazer o mesmo que os seus representantes da casa da democracia, achava que a educadora - escolhi esta palavra casualmente - não lhe concedera a avaliação que mereceria - ficou irritado e atacou. Tinha o mesmo direito que os misters, estava na terra da igualdade. Desta forma, decidiu usar o direito que o pai lá tinha em casa, na prateleira mais alta da dispensa.

Ambos sofriam da mesma maleita.


Vivia no país da tolerância. Nação que pedia aos seus cidadãos - os outros - que fossem tolerantes com aqueles que tivessem sido pouco tolerantes, que tivessem errado. "Ah, sejam vocês porque nós não temos tempo para isso. Sejam tolerantes, que nós - misters -  seremos noutra altura. Teriam medo do petróleo? Do dinheiro? Teriam medo que lhes aparecessem à porta a vender enciclopédias?

Não, tinham receio que lhes invadissem a casa. Assim está correcto. E, se têm receio que lhes entrem pela porta dentro e lhes partam a mobília bem encerada, antecipam-se e destroem-lhes a mobília primeiro. Redecoram a casa como bem entendem e ficam à porta a ver se não sai nenhuma da mobília que escolheram. Enquanto estiver no teu território, tens de usar a mobília que eu escolhi.


Uma matilha de misters governavam o país em vez de o fazerem pelos cidadãos. Consumava-se, então, uma influência invisível dos misters sobre o rapaz, sobre o pai do rapaz, o avô do rapaz... Entrou na casa da educação para se libertar - apesar de, ironicamente, o seu destino passar pela prisão - e, prende os outros, vítimas do acaso e da insatisfação pessoal, num quadrado por baixo da terra.
Engraçado, este jogo de contradições, onde os misters queriam proibir estrangeiros de ter em seu poder, no seu território, armas perigosas, quando o seu próprio concidadão as possuía para se "proteger". Além disso, é desta forma que os misters justificavam as astronómicas despesas no sector da "defesa". Dava ideia que os acontecimentos se interligavam?

 

E assim se proclamava uma democracia - bem se podia chamar idiossincrasia ou, no limite, hipocrisia - base de uma ideologia de desprezo e governo de casas que não lhes pertenciam quando nem sequer conseguiam gerir o que se passava debaixo do seu próprio tecto. A mente dos misters dominada pelo negócio e pela obrigação de se defender atacando injustificadamente quem lhes fazia sombra (até podiam nem ser inocentes nas acções que praticavam, no entanto também não tinham chegado a assaltar-lhe a casa).

 

No fim, o master de todos os misters apelava à união. (Olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço.) Uma demonstração de política anti-terrorista que acabava por criar terroristas neuróticos. Por sua vez, o rapaz decidiu andar aos tiros. O país do filme também tinha coisas bonitas e agradáveis, mas a falta de carácter e a arrogância prepotente apagara esses acontecimentos extraordinários.
(Se não fosse um filme, o rapaz podia ter carregado a arma com um cravo em vez de munições... Onde é que eu já vi este filme?)


Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 17:01
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3 comentários:
De jabeiteslp a 20 de Janeiro de 2013 às 21:06

Monologante país de munições...

boa semana de aqui dos calhaus


De golimix a 22 de Janeiro de 2013 às 17:25
Hummm... também acho que já vi este filme!!


De sofiazinha a 26 de Janeiro de 2013 às 03:03
maravilhoso texto,mais uma vez gostei de ler.


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