Domingo, 6 de Janeiro de 2013

O que a maré me dá

Desde há alguns anos para cá, levanto-me de manhã aborrecido. O primeiro pensamento que me vem à cabeça é "ai, estou com o braço dormente". Num acto de esforço, pego com o meu outro braço no dormente e lanço-o para fora da cama, como se atirasse uma pedra de um precipício. Logo de seguida chega-me à mente um arrepio e solto um "foda-se". Para finalizar penso: "tenho 38 anos e ainda não fiz nada que orgulhe os meus falecidos pais. E o pior é que não esperavam nada de mim". Abro os olhos, calço as pantufas e vou escolher o meu fato.

 

Mais um dia insuportável, tinha uma entrevista. Meti-me no chuveiro, com receio que me caísse água fria em cima, a canalização pode desfazer-se a qualquer momento. Momentos depois já me olhava ao espelho a sorrir, todo janota. Meti-me no carro e dirigi-me a Queluz de Baixo.

 

- Se tivesse alguma coisa no estômago este trânsito já me tinha feito vomitar... - Grunhi quando arranjei estacionamento... - Podia ter-me penteado... e dormido mais... Alfredo, estas olheiras ainda te dão pior aspecto! 

 

Quando dei por mim já me encontrava no quarto andar e dirigia-me à secretária no fundo de um curto corredor, azul, com fotos estranhas de pessoas, mas com qualidade excepcional, tiradas por quem sabe usar a objectiva no momento certo.

 

- Sr. Alfredo Boaventura! Boa tarde, estava a contar com a sua chegada. Sempre pontual.

 

- Boa tarde. Só Alfredo, o resto dá-me a volta ao estômago. - O fotógrafo não passou por este piso, senão haveria de ter uma fotografia da graciosidade que me fala agora mesmo. - pensei

 

- Siga-me por favor.

 

Meteram-me numa sala cheia de branco por toda a parte. As paredes brancas, secretária cinzenta, quadros em tons mortos, pouco mais coloridos que o Ryugyong Hotel, tão feio que os norte-coreanos negaram a sua existência e os sofás branco sujo, claro. Bem confortáveis, por acaso... Como será que o branco se sujou?

 

- Já deve ter passado por cá gente muito suja... - soltei um sorriso vergonhosamente maligno.

 

- Hum... que confortável! Por mim pode ser já aqui. Até simpatizava com a sala, as janelas grandes davam-lhe claridade e, nesse momento o sol batia-me na cara. Além disso, era cinzenta como eu.

 

Só retirava o relógio pendurado mesmo à minha frente. Inicialmente não me fez qualquer confusão, mas depois de já ter experimentado sentar-me naquele sofá nas várias posições - aceitáveis para a ocasião em que encontrava - pensei em levantar-me. Já em frente à janela, olhei para o exterior e vi edifícios, uma imagem pontilhada aqui e ali por pontos verdes.

 

- Dão abrigo a pessoas. Até os tijolos fizeram mais do que eu....- digo em tom revoltado.

 

As revistas não me interessaram num momento de tanta ansiedade, até porque já as tinha lido. Olho novamente para o relógio, parece que chama por mim.

 

- Será que este relógio não avança? Talvez esteja a ficar velho e a única viagem da sua vida tenha sido entre a fábrica e a loja onde fora comprado. Penduraram-no ali e ali ficou, com tudo para mostrar e sem nada para contar.

Dirigi-me apressadamente à secretária que me recebeu e pergunto-lhe que horas tem. Ela deixou escapar um sorriso, pior, vergou-me com ele.

 

- Faltam cinco para as três. - responde agradavelmente.

 

- Sabe se demorarei muito para falar com a apresentadora? - tentei retorquir da mesma forma.

 

- Não há-de faltar nada. Mas já é a terceira vez que pergunta. Pode dar uma vista de olhos pelo nosso estúdio e beber alguma coisa na sala de reuniões que lá existe, para descontrair. - deixando um sorriso franco no ar em vez daquele a que chamam amarelo e ao qual eu considero negro.

 

Já no estúdio, entrou a jornalista que me entrevistaria, simpática, cumprimentámo-nos da forma prevista, sorriu e pediu-me para me sentar como me aprouvesse. Assim fiz e a entrevista começou juntamente com o play das "maquinetas" que me encaravam por toda a parte.

 

- Alfredo, como se sente quando é chamado de papa-concursos?

 

(To Be Continued... Na próxima semana vejam o final da história)

 

Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 19:00
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1 comentário:
De golimix a 13 de Janeiro de 2013 às 18:09
...

Então comento para a semana


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