Terça-feira, 27 de Novembro de 2012

Ser criança para sempre

Não se tenciona aqui dar uma palestra sobre o amadurecimento ou a falta dele. Isso é tema para um bom programa da SIC Mulher. Aqui pretende-se dizer: Mesmo depois de largares a fralda, vais continuar a fazer merda. Mas cresce, porque crescer tem coisas boas, para além de veres o sítio por onde nasceste, só que em outras pessoas.

Ninguém aprende a ser uma criança. Já o somos quando nascemos, quer estejamos a beber leite agarrados a uma mama (Agora bebemos da caneca e já não é mau!), quer estejamos a brincar com legos. Em contraponto, ser adulto é uma coisa que temos de aprender. Há quem aprenda bem, há quem aprenda mal e há quem nunca aprenda, como o pessoal da autonepiofilia.

"Tornar-se adulto" é uma expressão que tem vindo a sofrer uma metamorfose constante. No tempo dos nossos avós e bisavós, significava arranjar trabalho aos 14, casar aos 17 e tentar começar a fazer filhos aos 18 para ver se se chegava às dez crias antes dos 30. Uma espécie de competição directa com os coelhos como que a dizer “Ah e tal, vamos ver, afinal, quem é que põe mais seres no mundo por metro cúbico.”
Actualmente já ninguém se revê nesta sucessão de acontecimentos. Aposta-se na formação, arranja-se emprego aos 25 e casar traduz o pavor de ficar com alguém para sempre, na maioria dos casos. Ter filhos é um cálculo de “1 mais 1 igual a 3”, que cada vez menos pessoas está interessada em fazer, ou fá-lo, com mais ponderação.
Mas há coisas que não se perdem, desde Adão e Eva até aquele jovem da segunda fila que acabou de se tornar adulto há 43 milésimos de segundo. Adquire-se maturidade, responsabilidade, bom senso, algum juízo e consciência. Para os que não conseguem, existem as prisões.

Com 32 anos não podemos responder à pergunta “Amor, amanhã podes ir buscar os miúdos à escola?” ou “Pode ficar a trabalhar até mais tarde para entregarmos o projecto a tempo?” com “A, e, i, o, u. Rasga a folha e limpa o cu.”

“A, e, i, o, u. Rasga a folha e limpa o cu.” devia ser resposta universal para todas as perguntas, sem excepção. (Desculpem o pleonasmo.) Mas isso será explicado mais à frente no texto “Como perder uma boa queca com uma resposta estúpida.”

Há uma facção a igreja católica que adorava que as crianças nunca crescessem. Cá está! A sempre gira e interessante piada sobre padres pedófilos. Um clássico até mesmo entre os membros do clero. Eles riem muito à custa deste tipo de humor. Depois, limpam-se com toalhetes, vestem-se e cada um vai à sua vida.

Não devemos fugir à nossa própria personagem só porque agora temos barba ou, no caso delas, ficam chatas e possessivas e se desculpam com a menstruação.
Antes, chegávamos a casa e tínhamos o lanche feito. Deitávamo-nos no sofá com as sapatilhas calçadas, a limpar o ranho às mangas e a ver o Rei Leão.
Agora já não é bem assim. Estar em casa à hora do lanche é motivo para abrir uma garrafa de Moet Chandon. Mas se isso, porventura, acontecer, somos nós a preparar o próprio lanche. Nunca as sapatilhas vão tocar no sofá, porque sabemos perfeitamente que quem limpa somos nós. Limpar o ranho às mangas? Nem vamos por aí. Mas vemos o Rei Leão exactamente com a mesma lágrima no olho e a nostalgia da primeira vez.

Em jeito de conclusão e porque amadurecer não passa indiferente à maioria das pessoas, fica a sugestão: É impossível ser criança para sempre. Os anões tentaram e aquilo não correu muito bem.


Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 14:50
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5 comentários:
De Fátima Soares a 27 de Novembro de 2012 às 23:38
Moet Chandon, nesta altura... Está bem! Nunca pensei que fosse bem com o Rei Leão mas também o Zé Zé Camarinha a falar inglês é algo de imperdível. Realmente há que crescer a vida não se compadece se já somos crescidos ou não e hoje em dia ser criança mesmo também (apesar de não haver o trabalho e tal) não é nada fácil para alguns. Por exemplo os que são vendidos, violados pelos pais, mortos e por aí... Gostei. Uma boa noite


De jabeiteslp a 29 de Novembro de 2012 às 17:05

lucidez bem escrita...um fim de tarde em beleza...


De jabeiteslp a 29 de Novembro de 2012 às 21:08

eu vou beber uns copos com os futuros
espero
doutores verdadeiros

honestos pra já...


vamos ver se não apanho uma ...destilante


De Garota a 30 de Novembro de 2012 às 14:09
Não sei se será bem assim. Olha que os/as há, que bem tentam, que disfarçam, que enganam, que fingem, mas que no fundo, lá no fundo, nunca cresceram.
Deixar de ser crianças, até deixaram, mas também não são adultos, estão ali numa espécie de limbo, e normalmente nunca chegam a ser ninguém.

Quando a vida "aperta", todos nós queremos ser de novo crianças e esquecer que temos que ser adultos. Bom era podermos meter no modo "on" e "off" quando desejassemos...

Há que aprender ou saber meter uns pozinhos de Sininho aqui e acolá e a vida já nos parecerá menos dura... ao menos enquanto formos, nem que seja por breves minutos, de novo crianças.
;)


De Marta M a 8 de Dezembro de 2012 às 19:11
Buda considerava uma perda de oportunidades tentar ser criança a vida inteira,não crescer, não evoluir, não apurar os sentidos e as decisões...O "povo das crianças" chamou-lhe Hermann Hesse no seu livro magistral Siddhiartha ".
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Buda considerava uma perda de oportunidades tentar ser criança a vida inteira,não crescer, não evoluir, não apurar os sentidos e as decisões...O "povo das crianças" chamou-lhe Hermann Hesse no seu livro magistral Siddhiartha ".<BR class=incorrect name="incorrect" <a>Pessolmente</A> , e tendo em conta que tive que "encaixar" tanta consequência das chamadas "criancices", pois tento crescer todos os dias, preservando apenas em pano de fundo um pouco de uma certa inocência primordial...<BR>Entendi bem o texto?<BR>Bom fim de semana<BR>Marta M


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