Terça-feira, 27 de Novembro de 2012

Hoje não é amanhã

Normalmente, as pessoas vão a funerais por respeito àqueles que estão vivos. Isto faz-me muitas vezes procurar uma razão para o facto do (bom) morto, a melhor das pessoas, se apresentar no meio da sala, dentro de uma caixa de madeira toda almofada, preso numa camisa de forças preta, branca, impecável, onde a gravata actua como uma corda que não permite uma última despedida, muito menos um último fôlego.
Afinal, as cadeiras que circundam o bem visto e os que as ocupam é que importam. Elas e o cinismo que mantém em funcionamento toda esta máquina desafortunadamente chamada de sociedade. Reparem quão estético é, afinal, o acto humano.  

 

O caixão aberto serve para os visitantes justificarem a sua tão séria expedição ao local divulgado nos editais, tendo estes assim a certeza de que a sua viagem não se revelara infundada. Ainda mais quando se percebe que o Presidente disto e daquilo pisa nesse preciso momento aquele mesmo local e ainda mais quando o irmão do morto, ilustre personagem - quer dizer, conhecido -, se encontra sentado dois bancos à sua frente em carne e osso. Tal como o infeliz  morto (mas boa pessoa).
De lá retiro a ideia que o morto devia ir nú para aquilo a que vi Justin Halpern chamar de "eternidade do não-ser". A sua decomposição seria mais fácil, mas a vaidade do morto não permite tal ousadia. Se algum dia voltar a estas paragens enquanto zombies, talvez seja útil o vestuário em questão.
Os zombies poderiam falar e deixar de ser uns inúteis, apenas andam de um lado para o outro a grunhirem que nem búfalos esfomeados. Segundo vemos em virtuosas produções televisivas, os citados zombies vêm à terra com uma fome imensa e os seus instintos apenas lhes dizem para comer quando, diga-se de passagem, estes estão mortos, não têm instintos, nem precisam de comer para se manterem... vivos.
Numa leitura leviana e pouco cuidada da minha parte percebo que este tipo de produções reflectem a falta de conhecimento do homem acerca do que é a morte e do que acontece depois de um determinado ser padecer. Essas "coisas" não sabem bem o que querem. Enquanto seres vivos, querem estar vivos. Quando fecham a matraca definitivamente e são alvo daquilo a que chamamos velório apercebem-se que as visitas quebram o silêncio pesaroso próprio de uma instância religiosa para elogiar as virtudes do ex-vivo.

 

Não obstante, estar sempre na mesma posição é coisa para criar escoriações. Vai daí, apelam à humanidade do S. Pedro e algumas vezes estes concede-lhes o estatuto de morto-vivo, julgo eu. Assim, vagueiam por aqui e por ali sem um objectivo bem definido, brancos como a cal e com as roupas já todas rotas. Devem-se esfarrapar todos para obter tal estatuto.
Numa visão mais pessoal, espiritual e parva, dou conta que a morte é triste. Aliás, deve ser a criatura mais triste que existe. Não pode brincar com ninguém. Quando ela vai ter com alguém esta, num acto desprezível, fecha os olhos e não diz nem mais uma palavra. Como se a senhora da foice não merecesse um único suspiro de consideração. Ah, alguns ainda largam uma lágrima - diz-se - em tom de gozo.  

 

Ora, esta perspectiva adensa ainda mais aquilo a que me tenho vindo a referir. Se os mortos estão... mortos, não falam. Vai daí que, ou o S. Pedro anda a dormir ou a morte é coisa para se brincar pouco. Ela aproxima-se e PUMBA!, nem temos tempo para escolher a indumentária para a nossa própria despedida.
É por estas e por outras que se diz dar azar falar de morte ou gozar com este tema. Ora, já que esta nos há-de bater à porta algum dia e se este estatuto de morto-vivo é apenas uma invenção do Michael Jackson, narrada pela indústria do espetáculo, o melhor é usufruirmos já antes. Viver é, afinal, ter a ideia que ainda não se viveu o suficiente. Morrer? Essa é a parte fácil...


Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 14:46
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