Terça-feira, 20 de Novembro de 2012

A lealdade de um garfo

As nossas mães alimentam-nos enquanto crianças. Tudo muito bem. Mas depois apercebem-se que vamos aprendendo a alimentar-nos sozinhos e deixam de nos levar comida à boca. Deixam-se apoderar pela malandrice com a desculpa de “Come pela tua mãozinha que já és um homem.” Nessas alturas apetece dizer “Ai, é? Sendo assim é meio whisky sem gelo e vai comprar-me uma onça de tabaco.” O que acontece é que ficam preguiçosas, aburguesam-se das questões essenciais relacionadas com os filhos.


Senhoras e senhores, meninos e meninas, apresento-vos quem nunca deixa de nos levar comida à boca, quase desde que nascemos até à infeliz hora da morte: o garfo! Todos os dias da nossa vida, está esse objecto leal e amigo, disposto na nossa mesa, pronto e sem queixume, a encher-nos a boca de papinha. O garfo só não nos teve, porque infelizmente não tem uma vagina. E é assim que um objecto ganha vantagem sobre a nossa própria mãe.


E agora, pergunto-vos. Quem merece levar-nos ao altar no dia do casamento? Uma mãe que nos abandona em criança ou um garfo que está sempre do nosso lado? E se a mãe tem um dia só para ele, porque é que o garfo não pode ter? Nesse dia até os chineses largavam os pauzinhos.


Para além da vertente paternalista que este talher detém, já evidente em cima, é também capaz de nos guardar os maiores segredos. E dizem vocês “Olha, boa! Ele não fala. Até a uma porta podes contar os segredos.” Não e bem assim. Uma vez, em conversa com uma porta, teci um comentário desagradável sobre o cabelo da mãe de uma amiga e ela foi contar-lhe quase de seguida. Outro exemplo: é um grupo de cinco parafusos que traz a público, ainda que de forma discreta, todos os segredos de justiça dos tribunais portugueses. Portanto, se querem contar segredos a alguém, escolham um garfo.


Dei-me ao trabalho de definir, numa pequena hierarquia, a fiabilidade de vários objectos. O garfo é o mais fiável. Podemos deixá-lo sozinho em casa de desconhecidos, com uma mala de milhões de euros ao lado, que ele nem lhes vai tocar. Nem ele, nem o Nick Vujicic, isto porque nenhum dos dois têm braços. Seguem-se os aquecedores a gás e, por fim, as flores artificiais. Estas últimas são falsas e de uma mesquinhez atroz. Não se lhes podem dizer nada e pedir segredo que vão contar a tudo o que mexe, quase automaticamente. Esta hierarquia pode ser encontrada numa pirâmide que eu desenhei na porta da casa de banho do Vasco da Gama.
Por falar em pirâmide, alguém tem mil euros que me empreste?


Aproveito para contar uma história do tempo em que estive preso. O meu colega de cela, certo dia, acordou-me desta forma “Olha Johnny, será que a minha pila cabe toda na tua boca?” Respondi-lhe, ainda meio ensonado “Ó Arnaldo, sabes perfeitamente, pela quantidade de recortes da revista Gina que tenho no cacifo, que gosto de mulheres.” Ficou tão embaraçado que só teve dignidade para acrescentar “Ah! Está bem. Mas chama-me Cláudia, que me sinto mais à vontade.” Estranhei toda aquela situação, mas acabei por ignorar. À noite, senti o colchão mais duro. Só depois percebi que não era o colchão. Saquei um garfo do bolso e furei-o da cabeça aos pés. Parecia um carro da GNR em dia de ir passar multas de estacionamento para Chelas.


A acrescentar ao paternalismo e à confiança, temos o sentido protector, o que amplifica o conceito de lealdade.


Por isso, quando eu ganhar um Óscar, para além de agradecer ao senhor do quiosque por me ter dado num calendário de meninas nuas ainda eu não sabia escrever, o que mudou radicalmente a minha forma de encarar a vida, tenho também que agradecer a um garfo de peixe número 4 de um faqueiro de 19 quilates, por me ter salvo a vida, a dignidade e, acima de tudo, o rabo e a um outro de sobremesa que me salvou de morrer afogado no dia em que decidi beber água muito depressa.


A prova de que os garfos são de uma lealdade férrea está presente na história que vou contar. Certo dia, chego a casa, e faço a seguinte pergunta virado para a gaveta dos talheres “Tu és fiel, garfo?” E diz-me ele “Eu não sou um garfo. Sou o teu tio Maurício e o teu hálito cheira a cachaça.” Ficou evidente que para além da lealdade, têm um sentido de humor arrojado e com características muito próprias.


Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 16:10
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