Terça-feira, 6 de Novembro de 2012

O Amor é Lindo (Pelo menos, na primeira meia hora)

Ele era rei de tudo o que eu conheço. Foi o mais belo começo numa história para contar. Ela fez dele um bom amigo, sentiu borboletas no umbigo e não conseguiu evitar.

Ele era um amante encantador que fazia tudo por amor e tinha vida de bom burguês. Ela era uma versão, de vodka na mão, da Amélie, daquele filme francês.

 

Os seus olhos eram varandas que davam para os dela e ela sentia-se vedeta de televisão, como Carochinha à espera do seu João, em tela de aguarela.

Siameses de mão. Montras, restaurantes e noites importantes que nunca mais acabavam. E quando finalmente chegavam ao fim, desejavam a próxima.

Ele era todo seu e sentiam-se fielmente amados. Um revivalismo de Julieta e Romeu, mas com o apoio dos dois lados. Partilhavam o chuveiro, passavam o domingo inteiro a ver cinema estrangeiro e a sujarem-se com pipocas. Tinham almoços de príncipe e princesa, em que a sobremesa era a tentação dos corpos, à qual era proibido resistir.

 

Faziam férias no inverno em chávenas de chá quente, mas tinham a noção presente de que havia uma serpente que os tentava com maçãs. Ela culpava a vizinha. Ele culpava o que nunca tinha, porque, por incrível que pareça, doía-lhe sempre a cabeça ou o coração quando ele apontava para o céu sem usar uma única mão. Portanto, assentar e dar o nó foi farsa para haver bobó e deixar o vestido de noiva a ganhar pó.

 

Passou ele a fazer vida de marinheiro e gastava todo o dinheiro em oceanos de bagaço. Virou vilão de gin e Lucky Strike e passou a viver num cabaré. Ela dedicou-se às suas rendas e comprava certas prendas para um professor de karaté. Ela que ao início usava tiara, revelou-se fase rara. O seu apaixonado que vestia pele de cordeiro era um boémio forasteiro que transpirava egoísmo. Por fim, a irónica salvação do abismo.

 

E viviam assim, antigas almas apaixonadas, a dormirem em camas separadas, depois de uma apaixonante epopeia que não durou mais de hora e meia.

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 15:20
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2 comentários:
De golimix a 8 de Novembro de 2012 às 16:11
Que curta esta vida a dois! Mas seria uma vida a dois? Ou simplesmente umas vidas que se cruzaram por acaso e continuaram sozinhas?


De Su a 12 de Novembro de 2012 às 00:25
I like it... Gosta das rimas disfarçadas no meio das frases. :)


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