Segunda-feira, 29 de Outubro de 2012

Apontar é feio, comer o próprio vómito é mais

Estou a beber um café num sítio que não é um café.

 

Do outro lado do balcão está uma velha com cara de louca com um puxo mal apanhado. É também, provavelmente, cega de um olho. Conduz, aposto, um Renault 19, carro a que chama carinhosamente de Filomena. Não dispensa a combinação ridícula de meias com sandálias.

Adoptou uma criança iraquiana, mas acabou por trocá-la por duas revistas de ponto-de-cruz. Sim, quase que aposto. Tem medo de aranhas, cobras e de tomar banho. Beijou um sapo, certo dia, por ter a convicção que de lá sairia um príncipe. Apanhou uma depressão que lhe deslocou a boca um bocadinho para o lado, o que lhe facilita, agora, tocar com a língua na orelha.

 

Estou num café onde não há café.

 

Muito por certo, foi costureira nas Forças Armadas. Ainda vive com os pais e tem péssimo dedo para a culinária. Tem três bíblias, duas das quais servem-lhe para calçar a cama. Possui o estranho hábito de ver as horas pelo Sol.

Quando era criança, vendeu as bonecas para comprar um revólver. Coisa que lhe deu imenso jeito para passar a ser filha única. E a única relação que teve foi com um anão, porque nestas coisas disseram-lhe que é bom começar por baixo.

 

Não estou num café a beber um não-café.

 

Colecciona livros de insectos e os próprios insectos, mortos em caixinhas de fósforos. Tem também cabeças de animas embalsamados, pendurados na parede. Um hobbie calmo e relaxante que acompanham os dois maços de tabaco por dia.

Era tão do contra que, todas as manhãs, tentava lamber o próprio cotovelo.

Frequenta convenções de costura e clubes de literatura de mini-saia, apesar das pernas cravadas de varizes. Vai, também, religiosamente, almoçar todos os dias a um restaurante de esquina, porque acha o empregado de mesa quarentão um bom partido. Enfim, nunca teve coragem de se declarar. Outra das suas paixões secretas é Manuel Maria Carrilho, mas não é história para revelar hoje.

Passa as manhãs a ver gravações antigas das “Lições do Tonecas”, enquanto faz as suas próprias camisolas.

Facto curioso, era o de achar que o Malato e o Boss AC são a mesma pessoa.

Toca reco-reco numa colectividade da qual é a única integrante e acaba todas as conversas com “Beijinho na bochecha de você.”

 

Aproximei-me dela e disse-lhe “Era para pagar o café.” Ao que ela me responde “Mas o estabelecimento é seu. Eu é que tenho que lhe pagar meia torrada e um cálice de Macieira. E da próxima vez que quiser fazer suposições sobre as pessoas – erradas, garanto-lhe – fale mais baixo ou tente estar mais sóbrio.” Soltei uma resposta convicta e vibrante sob a forma de um melodioso “People are strange, when you're a stranger, Faces look ugly when you're alone”. A mulher virou costas, mas sem conseguir antecipar, por muito que fosse bom a prever situações inesperadas, virou –se de novo para mim, prendeu-me e reduziu-me com os seus olhos fortes e temíveis e a sua postura rígida, própria de quem vai dizer uma frase para eu recordar na eternidade. Surripiou-me toda a atenção possível como de forma propositada para fazer o tórax rachar-me com a pressão que imprima nos meus batimentos. Enfim sorrio e disse “Beijinho na bochecha de você”. Presenteou-me com uma gargalhada estridente de fazer parecer Satanás num bebé bonito que dorme toda a noite sem perturbar. Desapareceu saltitando, mostrando as varizes, com uma energia imprópria de quem tem sessenta anos.

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 14:08
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