Sexta-feira, 20 de Junho de 2014

A Festa do Morto

Então, senhor morto? As pessoas vieram à sua festa porque diz que você morreu e você não é capaz de se levantar para distribuir uns refrescos e uns croquetes? Levante-se, homem. Diga qualquer coisa. Dance e cante como um canário. Olhe que só se morre uma vez.

 

Considero isto um escândalo. Trazem-lhe flores e você não se levanta para as receber? Junta-se família e amigos e você, na mesma? Na mesma! Beije a abrace as pessoas e pergunte-lhes “Como é que vai essa vida?” E eles respondem-lhe “Olhe, vim até cá matar o tempo.”

 

Em vez de optar por anfitriar, mantém-se deitado, imóvel, a dormir, a fazer um soninho sabe-se lá até quando. Ó senhor morto, não deixe as pessoas a morrer à fome. É que depois ficamos aqui com um ambiente de matar à faca.

 

Eu aqui, morto de inveja que nem na minha comunhão solene tive tanta gente e você, com estas pessoas todas bem vestidas, num dresscode rigoroso e aprumado, permanece deitado e rígido a pensar na morte da bezerra.

Ai senhor morto, senhor morto, você é mesmo um atraso de vida.

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 19:37
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Terça-feira, 3 de Junho de 2014

O melhor cu do mundo

Cu, de quem és tu?

Bonito e vistoso como és, deves ser alimentado pelas melhores carnes e por vegetais seleccionados, em quantidades pensadas para te fazer gostoso. Bonito e vistoso como és, acredito que te levem a passear à praia e aos bares de gin e que a tua senhora receba assobios. Bonito e vistoso como és, acredito que só te falte falar, se bem que desconfio que domines frases curtas como “Bom dia”, “Obrigada” e “Eram dois quilos de nêsperas, se faz favor.”

 

E eu vou ficar aqui à espera que me digas: Anda aqui ver isto. Nua da cintura para baixo, de sorriso agarrado aos dentes, libertas pequenos flatos em forma de coração, num cor-de-rosa com alguma transparência, com odor ao número cinco de Coco Chanel. E sobem eles, devagar, até rebentarem no tecto. Em sentido contrário, descem sobre ti bolas de sabão que te abraçam quando te tocam o corpo, nessa sala pequena forrada num veludo cor de paixão.

 

E eu vou ficar aqui à espera que me digas: Anda aqui ver isto. Num vestido oitocentista, armado na cintura, estavas tu, em pé, em cima de um pónei branco. E passava uma brisa que te deixava ver as pernas e esse teu bonito e vistoso rabo. Dele saiam pequenos coelhos, aos saltos, em fila, de sorriso simpático a entoar a Primavera. Em plano de fundo, nesse imenso relvado, acontecia uma batalha medieval, sangrenta, violenta, gritante, da qual o sangue, a violência das pancadas e os gritos de dor deixavam adivinhar o fim de um par de galáxias. Quando chegasses perto daqueles guerreiros - que em vez de espadas, usavam girassóis – e mal vissem esse bonito e vistoso rabo, ficariam rendidos e desistiam de lutar. Alcançavas a paz! E quem não conseguia com um rabo assim.

 

E eu vou ficar aqui à espera que me digas: Anda aqui ver isto. Tu, de pé, com três grandes líderes mundiais ajoelhados aos teus pés feios: um negro, um índio e um chinês. Tocava um blues num rádio antigo, no topo desse arranha-céus com vista sobre todos os continentes. Ninguém via o rádio, mas era de certeza assim, porque os rádios recentes recusam-se a beijar na boca o que é sublime. Estavas de novo despida da cintura até ao chão. Boa ideia a tua de usares a música para mover o corpo em embalos sedutores, para deixares a anca ser protagonista desse momento que fez o globo parar de girar para ficar a assistir. Quando tiraste as calças ficaste nua, porque usar cuecas vai contra a tua conduta. Tiravas um pão com queijo do rabo, entregavas ao líder africano e acabavas com a fome em África. Tiravas um cachimbo do rabo e o índio ia fumá-lo com os cowboys. Tiravas esparguete do rabo e davas ao chinês para ele parar de comer arroz. Solucionados que estavam os problemas do mundo, saiam te assas das bochechas do cu e esvoaçavas, de saias recolhidas nas mãos, ate te perderem de vista por entre as nuvens.

 

E eu vou ficar aqui à espera que digas: Isso não é real. Eu tenho imensa celulite.

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 13:24
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Segunda-feira, 2 de Junho de 2014

Como uma derrota pode ser uma vitória

A “vitória” de António José Seguro nas eleições europeias de Domingo é uma “vitória grande vitória”, mas para António Costa e para o PSD, que agora começam a sonhar em vencer as próximas eleições. Por razões diferentes. Se o poder continua do lado de Seguro. O PS só tem que aguardar e fazer figas. Para António Costa é diferente, e ele sabe-o.

 

Muitos podem criticar o tacticismo político do actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa. De facto já teve duas oportunidades para rasteirar o fraco e cada vez mais enfraquecido líder do Partido Socialista, o “vitorioso”. Paulo Portas, é outro vencedor da noite e contrariando o ditado que diz valer “mais que se fale mal do que não falarem nada”.

 

Seguro resistiu, é bom que se diga, mas apenas porque António Costa não avançou. Inconsequente e vazio é isto que posso dizer do líder da oposição. Mais do que Pedro Passos Coelho, no seu género populista. Pedro Passos Coelho até pode ter boas ideias e uma oportunidade de ouro para fazer o trabalho da forma correta, mas não tem capacidade para gerir um grupo de governantes.

 

António Costa foi paciente e pragmático - a um nível que não me agrada – e esperou o afundamento e destruição de Seguro para avançar sem criar dúvidas dentro do partido acerca da sua convicção, fazendo peito para as tropas de Seguro, ideia partilhada pela generalidade da opinião pública. É claro que o líder do PSD poderá alterar-se, resta é saber se tem capacidade para anular a inteligência político-táctica de António Costa, que quando entra é sempre numa condição favorável, onde sabe que a vitória é algo quase certo.

 

Aquilo que aconteceu no domingo passado não pode nunca ser considerado uma vitória. É uma derrota bem explícita, dos partidos, dos políticos, das políticas e dos cidadãos, que estão apáticos e não sabem como reagir ao que se tem passado em Portugal nos últimos anos. Além disso, os portugueses sabem que esta é uma eleição europeia, não percebendo a sua importância. Debateu-se tudo excepto a Europa.

 

Praticamente concorreram os mesmos partidos, com excepção de Marinho e Pinto. Caso interessante, esse. Fenómeno semelhante ao que Rui Moreira viveu no Porto, mas dois estilos diferentes. A campanha foi quezilenta, baseada em acusações - como sempre - e os cidadãos não são esclarecidos sobre a utilidade da mesma, embora Portugal seja apenas um dos membros do Parlamento Europeu e tenha a influência que tem...

 

A europa está a meio de uma crise e esta é resultado do desnorte, nacional e internacional. As pessoas também e a abstenção é sinal disso e cansaço dos demagogos. Exemplo disso são os resultados em França, com Marie Le Pen a aproveitar a popularidade que tem granjeado e com tiradas como a dizer que quer “destruir a União Europeia, mas não a Europa“. Ou na Grécia, onde o syriza começa a fazer-se notar mais do que talvez fosse desejado. A senhora Merkel fica para outro dia.

 

Paulo Jorge Rocha

Publicado por Universo de Paralelos às 13:09
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Terça-feira, 20 de Maio de 2014

O regresso dos poetas

Já não estão vivos os grandes poetas que o denominador comum conhece. Foi-se Pessoa; Morreu Mário de Sá Carneiro; Finou-se Camões; O Bocage é pó; Cesariny virou refeição para insectos. Estes são a versão portuguesa do Clube dos Poetas Mortos.

 

Para além destes poetas clássicos, que já não voltam, pelo menos para comer um prego, existem outros que sempre que voltam, são um clássico. Desaparecem momentaneamente e quando já os julgamos sepultados, regressam novamente para pregar ao seu público-alvo (a população) nessa grande ode à poesia que se chama ELEIÇÕES.

 

Começam por nos dizer, de olhos doces, “Vem por aqui.” E acrescentam os travadores socialistas “o único voto que muda é o voto no PS”. Quão bela é a conjugação entre a rima pobre e métrica a apelar ao “Ai e tal, só nós é que conseguimos, porque nós somos verdadeiros campeões e andamos no ginásio a malhar e agora estamos com os músculos maiores.” Talvez seja por isso que se diz: O político é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.

 

Os poetas da comuna deixam-nos com a estrofe “O que é nosso está-nos a ser roubado.” Sem recurso a figuras de estilo, a mensagem poética prende-se com a existência de um bichinho mau que nos vem ao bolso todas as noites, enquanto dormimos. Preferia mil vezes que este bichinho mau fosse uma gaja bem boa, que um Nando “Três Olhos” Ulrich ou um Papão Ricardo Espírito a aspirarem-me dos bolsos as moedas pequenas.

 

Os poetas do governo optam por um “Mostrar a Portugal, à Europa, ao Mundo, mostrar também ao PS”, à senhora da cantina, ao mecânico da minha rua e ao taxista maneta que mete mudanças com um ganchinho… É caso para dizer “Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?”

 

E como poetas populares, devíamos levantar o cu de onde ele estiver pousado e citar os outros poetas, aqueles que escrevem como consequência lógica de pensar, os que já bateram a bota, e gritar:

 

“A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!”

 

E acrescentem…

 

Se fosse para lavrar terra ninguém aparecia,

Vão morrer longe no cu da vossa tia.

 

Johnny Almeida

Publicado por Universo de Paralelos às 12:35
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